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História e Ciência da Computação

O Laboratório de História Digital da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) está desenvolvendo uma excelente iniciativa de aproximação entre Ciência da Computação e História a partir de lives/palestras ao vivo no seu canal no Youtube. Uma oportunidade de introdução das Ciências Humanas no campo das Humanidades Digitais e aprofundamento nas discussões do campo da tecnologia hoje.

A primeira delas foi no dia 18 de agosto e teve como tema “Big Data: noções introdutórias” com o Prof. Dr. Saulo da Mata (IFTM). Ele explicou didaticamente sobre o que são dados, seu volume, circulação, usos e importância no mundo atual. Há explicações e exemplos sobre Big Data, geopolítica das redes, análise de dados, monopólio de informações e estruturas de rede, questões morais e legais para a História Digital, entre outras. O professor deu exemplos de análise de Big Data e usos da programação em contexto acadêmico e empresarial, abordando questões técnicas, mas sem perder de vista aspectos ambientais, socioeconômicos e políticos. O que inclui o impacto dos dados massivos no comércio global, na astronomia, nas decisões de Estados até no combate de pandemias.

Ele realçou a importância dos bancos de dados e o papel da informação na sociedade contemporânea, seja na organização e gestão da economia, política e da sociedade. Algo estratégico para os países, inclusive em questões militares. A fala do professor me lembrou um textinho introdutório sobre o tema que escrevi há alguns meses, esse aqui: Informação e poder (clique para ler).

O Laboratório de História Digital da UFU está de parabéns pela pelo evento, uma introdução certeira para os interessados em Humanidades e História Digital. Vale ressaltar a qualidade do áudio e a disponibilização de todos os links citados na fala do professor e nos slides.

Um detalhe importante: o pessoal já deixou no canal deles o link (logo abaixo) para o próximo evento: dia 22/09 o professor Saulo da Mata vai tratar sobre Inteligência Artificial. imperdível!

Para saber mais sobre o Laboratório de História Digital (UFU):

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Clio XXI – Ciclo de debates

É uma série de eventos organizado em parceria pelo GT de Ensino de História e Educação e o GT de Teoria da História e Historiografia da ANPUH-RN. Ele será transmitido pelo Instagram, nos perfis dos dois GTs entre setembro e dezembro, sempre as 19h. O ciclo de debates conta com a participação de professores e pesquisadores de diversas instituições do Rio Grande do Norte (UFRN, IFRN, UERN, Prefeitura de Parnamirim, Rede Básica de Natal). Serão abordados temas variadas do ensino e pesquisa em História: periferia, políticas públicas, mulheres, imprensa, ações afirmativas, mídias e tecnologias, relações étnico-raciais, formação de professores e historiografia. A programação completa está nos cartazes abaixo.

Como participante do GT de Ensino de História estarei contribuindo na organização, também participarei da conversa do dia 02/12 (Quarta-Feira, 19h – Clique aqui para marcar na sua agenda) em um debate sobre Pandemia, docência de uso de tecnologias com o professor Jandson Soares (PPGH-UFRN).

Quer aprender mais sobre o que se anda pesquisando e ensinando em História atualmente no Rio Grande do Norte? Não perca esse ciclo de debates!

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No mundo dos jornais

As transformações da imprensa estadunidense dos anos 1950, o The New York Times e seus correspondentes na América do Sul

Prof. Dr. João Gilberto N. Saraiva

Quais as transformações da imprensa dos EUA com a chegada da televisão? Que mudanças quantitativas e qualitativas sofreram os grandes jornais no contexto pós-Segunda Guerra? Por que a América do Sul passou a ser cada vez mais importante para a opinião pública e imprensa dos Estados Unidos?

Redação do NYT nos anos 1950. Fotografias do acervo da publicação.

Essas e outras perguntas são respondidas na análise das transformações institucionais do NYT e da atuação dos seus correspondentes no continente sul-americano ao longo da década de 1950. Isso a partir de questões geracionais, universitárias, intelectuais e profissionais do campo jornalístico após a Segunda Guerra Mundial.

Tad Szulc, correspondente do NYT na América do Sul entre 1955 e 1961.

Texto completo disponível em:
https://iduff.academia.edu/joaogilberto0

Também em: http://historiadoseua.uff.br/…/1…/2019/11/Anais-IV-ENEUA.pdf

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Educação história

Dia de História

Viva a História e seus adeptos que tem a coragem de escavar o tempo e o espaço em busca de sentidos para o mundo!

Operários

19 de agosto: Dia Nacional dos Historiadores

“Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus pedreiros?
[…]
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas”.

Perguntas de um operário letrado, Bertolt Brecht (1898-1956)
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/89/Stamps_of_Germany_%28DDR%29_1988%2C_MiNr_Block_091.jpg


Imagens: Os operários de Tarsila do Amaral. Selo da Alemanha Oriental com Brecht e cena de “A vida de Galileu” (Fonte: Wikipédia).

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Pedras que riem

“No ano da graça de 1..53 do Nosso Senh…r a mando d… Vossa Majestade Dom… o Brag…”. As traças têm fome, consciência histórica não. Roeram os documentos do arquivo e hoje não temos certeza quando é que aquelas pedras foram colocadas ali, formando a lateral da Catedral Velha. O que sabemos é que se trata de uma pavimentação colonial, construída por fortes braços negros a mando da lei de algum monarca do outro lado do oceano. Acredito que nem elas mesmas se lembrem, ou sequer se importem de saber. Pensei isso por acaso, em uma caminhada pelo centro histórico da cidade há alguns anos. Eu, como você leitor, acreditava que pedras que cantam era produto da criatividade de algum compositor amigo de Fagner, mas não. Na realidade, eu nunca escutei elas cantarem mesmo, talvez o façam na madrugada quando não há ninguém escutando. Quem sabe elas acompanhem algum bêbado que entoa um bolero antigo enquanto tropeça até em casa. Certo é que elas conversam e mais do que isso, elas riem.

Catedral Velha, Natal-RN, 2016. Foto do meu acervo pessoal.

Eu vinha certa manhã distraído com meus pensamentos, talvez divagasse sobre algum texto ou o pagamento de uma conta. Dobrei a esquina da igreja e segui me protegendo do sol sob a sombra da parede branca que se projetava sobre o calçamento. Em algum ponto, meu passo manco engalhou numa quina e eu quase dei de cara com o chão, tive que me apoiar com uma mão e segurar os óculos com a outra. Para minha surpresa, escutei baixinho as risadas. Olhei para frente – em direção a praça – ninguém, olhei para trás e para o outro lado da rua, o mesmo resultado. E, com um espanto ainda maior, escutei: – Somos nós que estamos rindo. Assustado perguntei: – Nós quem? A resposta foi: Nós, as pedras. Sem acreditar, olhei para baixo e não vi boca alguma. Outra vez a voz: – Não se preocupe, você não está louco. É que nós sempre rimos das topadas e dessa vez você escutou. Mesmo sem olhos, elas devem ter visto minha expressão de espanto. – Não se assombre, somos pedras muito velhas, viemos de rochas diferentes, mas já estamos juntas tempo suficiente para ter pouco assunto. Então… Uma outra voz atropelou: – Teve uma vez, faz uns 50 anos, mandaram nos cobrir com asfalto, achávamos que seria nosso fim, mas não foi. Um terceira: – É, não foi, ele ruiu, esfarelou, e estamos aqui… A primeira voz retomou a fala: – Por isso, sempre nos divertimos com acontecimentos inusitados. A segunda voz mais uma vez: – É cara, não se preocupa, não rimos só de você. Nós rimos dos magistrados que passam cheios de pompa e pow. Testa no chão. Anos depois passam aqui com o caixão deles e cadê aquela pompa? Deviam ter aprendido a lição cedo com a gente. Lembram de um conde não sei das quantas, muito mais antigo, que quis dar uma de galã para a marquesa e também, pow! Outra voz: – E os casais apaixonados, e os poetas com a cabeça nas nuvens como este aí, e os revolucionários… e os bêbados?! A ampla risada das pedras novamente. Ainda assustado, consegui articular algumas palavras: – Alguém sabe que vocês falam? A voz mais debochada respondeu: – Até deve saber, mas quem vai acreditar? Se quiser, pode dizer para geral. Alias, vai lá dizer a todo mundo, segue teu caminho… sem cair. Mais uma risadaria baixinha. A pedra mais educada ainda pediu desculpas pelos companheiros e se despediu antes de eu ir embora sem saber se aquela conversa tinha sido mesmo real.

Outro dia, dessa vez a noite, fui em um samba numa rua próxima. Desviei o meu caminho algumas quadras só para passar por ali. Dobrando a esquina da Catedral Velha eu olhei com atenção para as pedras coloniais e até ensaiei um: – Oi… alguém ai?! Nenhuma resposta. Também tentei: – Olá… cadê vocês? Um silêncio sacro, próprio para um calçamento de igreja. Aparentemente elas não queriam conversa comigo e eu fui embora me questionando se um dia tinha mesmo conversando com aquelas pedras. Meses depois, eu estava mais um vez próximo dali, mas não tentei contato. Me dirigi ao Instituto Histórico em busca de mais informações sobre aquele calçamento falante. Não encontrei nada substancial, só informações desencontradas, parte delas atravessadas pelas traças. Acabou que nunca mais procurei algo sobre elas, o trabalho e a vida cotidiana me ocuparam, elas sempre vencem. De todo modo, hoje acho que o Maluco Beleza não é tão maluco assim quando diz que aprendeu o segredo da vida com pedras. Eu nunca vi delas que chorem sozinhas, nem que cantem, mas elas devem fazer isso em algum momento. Qual lição sobre a vida eu tirei da conversa com as pedras vizinhas a igreja? Não sei, não sou sábio como Raul. Apenas tive consciência da brevidade humana e da insignificância da maior parte dos nossos projetos.

João Gilberto Saraiva.

Revisão: Mazé

“Pedras que cantam” é uma música de Domiguinhos e Fausto Nilo que ficou famosa na voz de Fagner em 1991.

“Medo da Chuva” é uma canção de Paulo Coelho e Raul Seixas lançada em 1974, no álbum Gita.

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Códigos e aforismos: lições de escrita da programação para as Ciências Humanas

Que estudante nunca se exasperou diante de um livro, artigo, tese, etc. escrito de forma truncada ou incompreensível? Ou então, ficou perdido entre repetições e citações sem fim ou floreios literários que mais atrapalham que ajudam a compreensão efetiva do texto? Como historiador e leitor/escritor apaixonado por Literatura, considero isso um sério incômodo. Num contexto de cada vez mais demanda por uma História Pública e que explore novos formatos – do Youtube ao Twitter passando pelos Podcasts, Websites e Games – essa é uma questão fundamental.

Algo pertinente do aprendizado de programação, para a produção de material em Ciências Humanas, é a prioridade para a clareza, concisão e simplicidade. O que não significa uma linguagem opaca e desprovida de estilo, que imite algo produzido por um gerador de texto automático qualquer, mas sim atrelada a padrões mínimos de compreensão.

Os códigos produzidos em qualquer linguagem precisam ser suficientemente claros para compreensão da máquina e de outros programadores. Eles têm de ser o mais concisos possível para garantir que resolvam problemas da forma eficiente. Uma boa prática de programação ao se deparar com problemas complexos, quando é possível, tenta desmembrá-los em partes menores para facilitar a compreensão.

Uma das linguagens de programação, a Python, tem até uma série de aforismos sobre esse tema escrito por um dos seus desenvolvedores, Tim Perters. “The Zen of Python” diz que:

Bonito é melhor que feio.
Explícito é melhor que implícito.
Simples é melhor que complexo.
Complexo é melhor que complicado.
[…]
Legibilidade conta.

Tradução livre para o português

Beautiful is better than ugly.
Explicit is better than implicit.
Simple is better than complex.
Complex is better than complicated.
[…]
Readability counts.

Texto original em inglês

Ao ler esses aforismos o amigo historiador Gustavo Mor (estudioso da relação entre História e Internet) lembrou das litografias de “Touros” (1945) de Pablo Picasso. Nesse estudo, o artista espanhol produziu a imagem de um touro e foi decompondo-a gradativamente até encontrar os traços essenciais da figura. Numa perspectiva visual, ele decompôs a complexidade em simplicidade sem perder a beleza e a originalidade.

https://artyfactory.com/art_appreciation/animals_in_art/pablo_picasso/picasso_bulls.jpg
Fonte: https://artyfactory.com/art_appreciation/animals_in_art/pablo_picasso.htm

O paradigma da programação é semelhante, ele objetiva manter uma linguagem legível que deixe seus argumentos às claras sem abandonar o estilo. O simples é uma meta, mas é claro que há questões complexas que não podem ou não devem ser simplificadas sob o risco de tornar uma explicação anacrônica, rasa ou mesmo falsa. De todo modo, a complexidade é preferível a complicação desnecessária.

Esse paradigma está afinado com o que Robert Darnton – um historiador experiente em produzir para os mais diversos formatos -, listou entre seus mandamentos da escrita:

Não sucumbirás ao monografismo. Escreve monografias, se for o caso, mas escreve para o cidadão comum, de maneira que possam ser compreendidas.

Não esquecerás tua missão. Trata-se de dar sentido à condição humana, explicando as experiências vividas pelos seres humanos – e não marcar pontos entre os colegas acadêmicos.

Certamente Robert Darnton, Pablo Picasso e Tim Perters teriam muito o que conversar! De todo modo, te pergunto: e aí, vale a pena usar as lições da programação para pensar numa escrita Zen – clara e concisa – para as Ciências Humanas? Aposto que sim!

Quer saber mais sobre esses temas? Confere os links abaixo

Revisão: Maria José
Dicas e ideias: Gustavo Mor (Twitter)

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Camelos e dromedários: sobre línguas, linguagens e programação

Na Torre de Babel, formada pelas inúmeras línguas utilizadas no mundo todo, há uma questão que não foi prevista pelos antigos escribas que no Gênesis tratam do mito de uma construção feita para conseguir alcançar o céu. E não estou falando sobre os novos edifícios na China e Oriente Médio que efetivamente podem tocar e ultrapassar o véu das nuvens em direção ao firmamento, como o Burj Khalifa (em Dubai) e os seus 828 metros divididos em 160 andares. Da Antiguidade até o presente surgiram muitos prédios, mas também inúmeras línguas e tantas linguagens que talvez fosse preciso não apenas uma, mas sim duas torres de Babel irmãs, mas não gêmeas. Uma confusão que dá um nó nas ideias quando se pensa o que é e para que servem as línguas e linguagens.

Burj Khalifa.jpg
Burj Khalifa, Dubai. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Burj_Khalifa

Como já estávamos mesmo entre o calor e a areia do deserto nos Emirados Árabes, vamos nos valer da ajuda dos dromedários para clarificar nossa visão sobre esse tema. Um dromedário é um simpático animal de pelo curto com quatro patas e uma corcova, é alto e resistente a sede. Ele pode correr numa velocidade de até 16 km/h por horas a fio. Todo mundo já viu um filme ou imagem de algum atravessando o deserto do Saara. Ele tem um primo distante (mora na Ásia Central, a mais de 4 mil quilômetros) chamado camelo, que é mais baixo e tem um pelo longo que cobre duas corcovas, ele é bem mais forte (carrega muito peso) e lento (chega a no máximo 5 km/h). Apesar da diferença de nome, aparência física e habitat, muita gente confunde esses dois animais ou então acham que são a mesma coisa. Em parte porque eles tem um ancestral em comum que os legou algumas características compartilhadas, como a resistência a falta de água. Esse problema acontece também com as línguas e a linguagens.

Vivendo com uma professora intérprete de Libras não é incomum ver ela explicando a alguém que aquilo que ela ela ensina e interpreta é uma língua de sinais, não uma linguagem. Ai o interlocutor (estudante, dona de casa, médico, professor, etc) geralmente questiona: Mas não é a mesma coisa? Ai que tá, não é. Libras significa Língua Brasileira de Sinais, assim como o francês e o chinês, é uma língua. Apesar das línguas e linguagens serem elementos necessários para a comunicação humana, elas não são a mesma coisa.

Uma língua é um conjunto organizado de elementos que tem regras próprias e que permite comunicação. Nesse sentido a Libras tem suas próprias diretrizes e é uma língua visual espacial, ela utiliza sinais com as mãos, expressões faciais e movimentos do corpo. As línguas são tão variadas e complexas que daria para formar uma verdadeira Torre de Babel com elas. Mas então, o que é uma linguagem? É expressão do pensamento, corresponde a capacidade humana de aprender e usar as línguas e outros sistemas complexos de sinais para se comunicar. Nesse sentido, para se comunicar numa língua, como o português ou inglês, você pode fazer uso de linguagens variadas como a visual, a oral e a escrita. As linguagens vão para além das línguas – estão também no mundo das artes, por exemplo – elas são muitas e também se transformam ao longo do tempo. Elas poderiam formar uma segunda Torre de Babel, irmã da primeira, mas, como vimos, não gêmea.

Torre de Babel, pintura de Brugel, 1563. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Torre_de_Babel

E onde entra programação de computadores nisso? Nós seres humanos não utilizamos a língua materna dos computadores, também conhecida como código de máquina. Ela se trata de uma sequencia de bites que formam instruções a serem executadas pelo processador. Nós nos valemos de diversas linguagens de programação (Java, Python, Ruby, etc.) que a partir de certas regras próprias criam códigos fontes que são depois compilados e/ou interpretados para compreensão do computador. Há formas diversas de classificar as linguagens de programação, uma delas é o nível de abstração. Nesse sentido, existem as linguagens de baixo nível (mais próximas do código de máquina – exemplo: Assembly ) e de alto nível de abstração (mais próximas da linguagem humana, como as citadas anteriormente).

Bem, todos nós nos valemos das línguas e linguagens a todo momento e cada vez mais as máquinas (sejam notebooks, celulares, etc) ocupam um espaço maior em nossas vidas. São tão ou mais úteis do que os dromedários para nos levar de um lugar a outro, de uma página a outra na rede. Agora você já sabe que assim como camelos e dromedários, as línguas e linguagens (sejam humanas ou computacionais) estão vinculadas por uma mesma raiz, mas, de modo algum são a mesma coisa. Por isso, quando alguém se confundir com essas palavras, você já sabe como desembaralhar as ideias.

João Gilberto Saraiva.

Quer saber mais sobre camelos e dromedários, língua e linguagem ou linguagens de programação? Veja estes links:

Revisão: Maria José
Dicas e ideias: Erielma / Izaac / Brenno (Twitter) / Gustavo Mor (Twitter)

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Informação e poder: o encontro entre os bancos de dados e a História

Breves reflexões de um historiador cursando uma disciplina de Programação Web.

Uma conexão interessante entre os bancos de dados e história é o papel social da informação. Tendemos a ver o dinheiro (quem tem x quem não tem) como o principal demarcador da posição das pessoas na sociedade, mas há outros marcos: ter disponível tempo para o lazer, descanso, etc., também o acesso a itens variados: vestuário, saúde, alimentação e, é claro, informação. O que inclui formação nem escolas e universidades ou poder ler livros e jornais, mas vai além. É uma questão fundamental para pessoas, empresas, Estados.

Charles Chaplin em cena clássica de um dos seus filmes. Fonte: Wikipédia

O controle de informações é tão vital que países tem departamentos só para salvar e monitorar dados (vide IBGE), poderosas empresas vivem da distribuição de informação (exemplo: a Google) e o que é o mundo das ações como as da Nasdaq senão um jogo de previsões de informações sobre mercados?

A informação não é apenas um tipo de recurso, é também um poder. Por isso gastos vultuosos de forças militares e policiais (como CIA) em inteligência e contraespionagem (vide a caça a Julian Assange) e o investimento massivo de empresas na ampliação do seu domínio sobre a internet.

A expansão da rede mundial de computadores evidencia que a informação é para a sociedade tão vital quanto dinheiro. Por isso, aprender a criar e usar bancos de dados não é simplesmente assimilar como girar um parafuso. É começar a descobrir um novo modo de mover uma das mais poderosas engrenagens do mundo!

João Gilberto Saraiva.

Obs.: Ninguém melhor que Charles Chaplin para apresentar as questões da informação na sociedade contemporânea. Seja no campo, na fábrica ou mesmo na aula de programação no IMD – Instituto Metrópole Digital. Somos todos Chaplins de ferramentas na mão correndo contra o tempo!

Postado originalmente em: https://twitter.com/0joaogilberto/status/1280295294350000130

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Quem é Pink Floyd na fila do pão? – Luiz Gonzaga e o ópera forró

Calma leitor, nenhum jornalista ou historiador que se preze diria que essa frase é verdadeira. Não há qualquer indício que prove que o Rei do Baião já tenha pensado ou dito algo parecido. Mas afinal, o que quero dizer com ela então? Este texto chama atenção para um aspecto ainda não sublinhando do forró, que o conecta aos vinis e shows de rock dos anos 1970 e as casas de ópera, um gênero criado ainda século XII. Continue lendo que você vai entender melhor.

Luiz Gonzaga e Domiguinhos

Para começar, vamos fazer uma consulta breve a Wikipédia. Segundo ela:

Ópera (em italiano: significa obra, em latim, plural de “opus”, obra) é um gênero artístico teatral que consiste em um drama encenado acompanhada de música, ou seja, composição dramática em que se combinam música instrumental e canto, com presença ou não de diálogo falado. […] O drama é apresentado utilizando os elementos típicos do teatro, tais como cenografia, vestuários e atuação. No entanto, a letra da ópera (conhecida como libreto) é normalmente cantada em lugar de ser falada. A ópera é também o casamento perfeito entre a música e o teatro.

Link para o verbete completo.

Mas o que é que Luiz Gonzaga e o Pink Floyd têm haver com isso? Mesmo que você não goste, ou nem conheça qualquer coisa sobre rock, já deve ter ouvido a música Another Brick in The Wall Part II do Pink Floyd. Ela é famosa por causa do coral de crianças, aqui acolá toca no rádio ou o YouTube sugere se você estiver escutando clássicos do estilo.

Clipe da música no canal da banda, versão para filme de 1982.

A música faz parte do álbum duplo The Wall, lançado pelo grupo em 1979 e é um dos seus grandes sucessos de vendas, downloads e opinião da imprensa especializada. Esse álbum tem uma especificidade, suas 26 músicas contam a história de um personagem chamado Pink. Repletas de elementos teatrais, as composições abordam as vivências dele desde a infância até se tornar adulto. Ao longo das músicas você acompanha a superproteção da mãe, a perda do pai na Segunda Guerra, os problemas e humilhações na escola, as questões da adolescência e até o casamento de Pink.

Este tipo de álbum é classificado como um ópera rock, um tipo dentro do estilo em que é contada uma história com início, meio e fim ao longo das músicas. Há uma unidade de temas, gêneros, modos de narrar que conectam as composições de uma forma que o álbum de rock apresenta uma história conexa. Entre o final dos anos 1960 e início dos anos 1980, diversas bandas lançaram álbuns de ópera rock, dois bem conhecidos são Tommy (1969) do The Who e 2112 (1976) do Rush.

CD Luiz Gonzaga - Ao vivo - Volta pra curtir (Sony) — Passa Disco

Você deve estar se perguntando, onde é que o forró entra nesta história? O rock não foi o único gênero musical ao longo do tempo a se apropriar de elementos da ópera e da teatralidade, ela é perceptível na música de artistas de épocas e estilos variados como o grupo de rap americano The Roots e o pernambucano Cordel do Fogo Encantado.

Por falar em artistas pernambucanos, anos antes de Roger Waters começar a escrever as letras do famoso The Wall, Luiz Gonzaga já tinha lançado mais de 21 discos. No início dos anos 1970, ele era um veterano com mais de 30 anos de carreira já contava com diversos sucessos, mas um tanto esquecido pela imprensa e pelo público carioca.

Só que em 1972 o jogo virou, Gonzagão foi acompanhado em uma série especial de shows por uma banda de peso. Ela incluiu músicos fundamentais para música brasileira: Renato Piau (guitarra), Dominguinhos (sanfona), Porfírio Costa (baixo) e outros. O espetáculo chamado Luiz Gonzaga Volta para Curtir entrou em cartaz em março no prestigioso Teatro Tereza Rachel em Copacabana. Teve direção e roteiro de Jorge Salomão e Luciano Capinam, além de ambientação de outro artista de vanguarda, Oscar Ramos.

O que resultou disso? Bem, um show antológico em que o experiente Luiz Gonzaga foi acompanhado por uma banda jovem e moderna, cheia de gás e versada em estilos variados como o jazz fusion e o samba. Uma arquitetura musical que valorizou, amplificou e tornou mais complexo o forró do Gonzagão. O registro que temos a uma gravação de 15 músicas, lançada posteriormente em CD. Nelas, Luiz Gonzaga enlaça a sua própria história entre as décadas de 1910 e 1970 com a história do Brasil.

É nesse ponto que cruzamos forró com ópera, porque mais do uma simples narrativa, esse espetáculo reuniu elementos de teatro, ópera e forró. Conectou elementos variados a partir da contação de história: a Revolução de 1930, a migração nordestina para o Sudeste, conjuntura política da Ditadura Militar, contradições e transformações socioeconômicas variadas, a vida na periferia do Rio de Janeiro , a tradição oral, os causos e o cordel (de Padre Cícero a Lampião, passando pelo São João). Tudo isso sem perder o ritmo, embalando uma música na outra e indo e voltando no tempo.

Há diversas questões sobre memória, narrativa e cultura popular que um estudioso faria sobre os recortes e histórias apresentados pelo Rei do Baião, mas nesta altura é melhor deixar você leitor escutar, se deliciar e tirar suas próprias conclusões.

Seria o álbum Luiz Gonzaga -Volta para curtir o primeiro ópera forró, anos antes do famoso The Wall do Pink Floyd? Não sei, certo é que esse é um dos grandes discos da música brasileira e merece ser escutado por todos. Afinal, quem é Pink no jogo do bicho se você pode conhecer Gonzagão e a história brasileira pelos caminhos do próprio Rei do Baião?!

Música que abre o álbum, todas estão disponível na internet.

Para saber mais:
Postagem do blog Forró em Vinil sobre este álbum
Verbete de Luiz Gonzaga na Wikipédia
Trecho do livro “O fole roncou – uma história do forró” de Carlos Marcelo sobre este espetáculo de Luiz Gonzaga.

Revisão:
Maria José/Arthur Duarte (Twitter)

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Contos e Crônicas

Livraria

A pequena placa na fachada indica o nome e o endereço, mas ele nem precisa olhar, sabe de cor. Livraria de B. L. Garnier. Rua do Ouvidor, 71. Grande sortimento de Livros clássicos, Medicina, Sciencias… O que lhe chama atenção agora é ver, mais uma vez, seu próprio nome do outro lado da vidraça em destaque na casa que abriga pessoas que tanto admirou ao longo da vida: Victor Hugo, Pascal, Montaige, Shakespeare. Ele sabe que o fio da sua já vai gasto, e que não haveria tempo para sua caneta-tinteiro escrever mais um livro. É o som de passos na calçada que lhe retira do estado absorto. Um senhor e um rapaz bem arrumados, os ternos já estão em moda, mas vão à antiga: fraque, cartola, bengala e sapatos. Cumprimentam e passam, o bom perfume se demora um pouco mais, o quase septuagenário atenta para o rapaz.

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Livraria Garnier, Rio de Janeiro.

As cartas pousadas sobre a mesa não chegam a uma dúzia, mas não é de se admirar porque este é um pequeno jornal que mal se mantêm. O jovem veio bem cedo para diminuir um pouco mais esse número, agradeceu ao porteiro e pôs no bolso uma carta endereçada “Ao autor do soneto”. O caminho até a Praça da Constituição não é longo, mas ele teve que segurar a ansiedade para ler apenas quando chegasse à tipografia. Já lá, numa mesinha ao lado dos tipos metálicos da prensa, enfim matou sua curiosidade. Eram elogios comedidos ao poema, especialmente aos versos. “O genio que vos faz ennobrecer. Virtude e graça de que sois c’roada”. O remetente anônimo comentou que pelo estilo e iniciais da assinatura sabia que o autor era um estudante do nobre Colégio Pedro II.

Ele esqueceu o papel em suas mãos e se transportou para lá, se viu a dominar o latim e o francês com a facilidade do incrível cigano domador de leões que havia visto escondido na semana passada no circo. Mas de repente, do riso fez-se o pranto. Ele mesmo se trouxe de volta à realidade. Sabia que naquele colégio havia lugar para filhos de barões, não para um aprendiz de tipógrafo pobre, ainda mais preto. E antes que uma lágrima fugidia pudesse surgir, ele rasgou a carta em pedacinhos e tomou sua decisão. Não, não seria um domador de palavras, não precisaria de chicote e banquinho. Seria um encantador como o árabe da flauta que fazia as cobras dançarem. Faria as palavras subirem do chão, bailar e cobrir cada coisa e pessoa com astúcia e beleza. Resolução tomada, era hora de voltar ao tipógrafo, posicionar letra a letra com cuidado para que nenhuma saísse invertida ou fora do lugar no folhetim de amanhã.

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Livraria Garnier, Rio de Janeiro.

Quando o rapaz e o senhor bem vestidos dobram a esquina ele se volta para a vitrine da livraria. Seu coração não está habitado por qualquer mágoa ou rancor, só a satisfação reacendida. Mão na maçaneta da porta pesada que o separa dos velhos amigos. Antes de abrir mais um relance no que está escrito na vitrine: Machado de Assis – Memorial de Aires.

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Machado de Assis

Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839 e é um dos maiores escritores da língua portuguesa. Lançou seu primeiro poema no “Periódico dos Pobres” no mesmo ano em que começou a trabalhar como aprendiz de tipógrafo, 1854. Lançou seu último romance, Memorial de Aires, e faleceu no Rio de Janeiro em 1908.

A Livraria Garnier, foi uma livraria e editora localizada do Rio de Janeiro funcionou entre os anos de 1844 e 1934.

Fotografias: Tertúlia Bibliófila/Biblioteca Nacional/Wikipedia