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Domben: pequena odisseia musical

Pode ser um dia de mudança ou faxina, seja qual for, por algum motivo você tem de mexer em caixas esquecidas no guarda-roupa ou dispensa. Lá estão elas , cuidadosamente encobertas pelos anos com camadas de poeira. Ao abrir cada uma delas, a surpresa com moedas, cartões de aniversário, isqueiros e outros objetos que você nem imagina de onde vieram. No meio deles um porta-cds e vem a curiosidade de descobrir o que pode ter lá dentro. Pode ser que sejam CDs de instalação de um equipamento antigo… Pode ser que sejam os takes originais das gravações da banda que você tocava 12 anos atrás.

E ali você volta no tempo, se vê andando com seus amigos pelo escuro das ruas da Ribeira com instrumento musical nas costas esperando o dia amanhecer. Hoje cada um tem uma profissão diferente e moram em pontos distintos do país. Reacende o sabor e cheiro da cerveja nos shows em espaços apertados, da vida corrida entre faculdade e trabalho juntando grana para gravar. Será que ainda sei tocar aquela música daquele jeito? Por onde anda aquela palheta, e a escaleta?Lembra da guitarra, do baixo, das baquetas… dos sonhos e projetos dos 20 e poucos anos, tanto dos que ficaram pelo caminho, quanto dos que conseguiram ser realizados. Bem, essa é a história de um deles. Depois de mais de uma década, enfim as duas músicas gravadas vão ao ar nas plataformas digitais.

Em 2008, a banda Domben realizava uma temporada de shows em Natal e Mossoró, nos tradicionais pequenos e médios palcos de rock potiguar e na casa de amigos. Levantaram uma grana e gravaram com Dante Oliveira utilizando a estrutura do estúdio DoSol na capital potiguar. Já em 2020, Cássio Augusto achou os takes originais e levou para o Estúdio Espelunca em Porto Alegre – onde hoje ele mora. O produtor Pedro Mariano Wortmann fez, junto da banda, um primoroso trabalho de mixagem e masterização dos áudios originais de voz e instrumentos.

Hoje, doze anos depois de gravadas, temos a oportunidade de escutar “Fardo” e “Adeus Prazer” em todas as plataformas digitais. É mais que a ativação de uma lembrança, é a celebração e o justo encerramento de um ciclo importante de nossas vidas!

Domben
Cássio Augusto Ramos – voz, guitarra, escaleta;
Guilherme Oliveira – voz, guitarra;
João Gilberto Saraiva – teclados;
Moysés Gama – baixo;
Waldemar Ramos – bateria.

Texto: João Gilberto Saraiva.
Fotos: Bilico.

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Educação Textos variados

POR QUE AINDA CRIAR UM BLOG EM TEMPOS DE INSTAGRAM?

Está no ar meu trabalho sobre a experiência do uso de um blog na disciplina de História da Escola Municipal Ivanira Paisinho (Parnamirim-RN) – antes e ao longo da epidemia do coronavírus – no site do 6º Simpósio Eletrônico Internacional de Ensino de História na categoria Mídias e Tecnologias.

POR QUE AINDA CRIAR UM BLOG EM TEMPOS DE INSTAGRAM? REVENDO POSSIBILIDADES NUMA EXPERIÊNCIA DE ENSINO DE HISTÓRIA NA “GALÁXIA DOS CELULARES”

A participação no congresso é através de comentários, avaliações, perguntas e respostas sobre o texto de qualquer pessoa interessada. Então, se tiver qualquer coisa para comentar, não deixe de fazer!

Entre os dias 18 e 22/05 todos os textos do congresso estão abertos para comentário e debate.

ACESSO AO TEXTO COMPLETO – CLIQUE AQUI https://simpohis2020midias.blogspot.com/p/joao-gilberto-neves-saraiva.html

Meu agradecimento aos alunos que estão desde o começo do ano acessando, fazendo pesquisas, atividades, comentando, etc. diariamente no site educacional que criei. Também aos pais, professores, coordenação e direção da escola que vem tornando essa experiência possível!

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Culinária Dicas

Revolupão 2 – Pão Sírio

Quando eu e Erielma viajamos para Foz do Iguaçu-PR (na fronteira com o Paraguai e a Argentina) tivemos o prazer de conhecer mesquitas, cafés e lojas e lanchonetes árabes. Nos encantamos com a beleza da arquitetura, com as roupas, comidas, bebidas e especialmente com a abertura da comunidade em explicar sua cultura e história. Aprendemos muito (e até ganhamos livros!) numa visita a mesquita Omar Ibn Al-Khattab (clique para conhecer mais)

Um dos elementos que nos encantou foi a culinária árabe, em especial, o café, os doces e a shawarma, um prato delicioso do Oriente Médio que lembra o kebab. Entre os souvenir de viagem, trouxemos alguns doces e também pacotes de PÃO SÍRIO. Ele também é chamado de pita ou de pão árabe: é aquele pão fininho e oval que comemos geralmente recheado com carnes, queijo e verduras. Este ai embaixo é um que fizemos aqui em casa.

Aprendendo a fazer pães em casa nesse período de isolamento social nos deparamos com a receita do pão sírio, que nos chamou atenção por sua simplicidade (3 ingredientes e sem fermento) e facilidade de ser feito. Também porque já sabíamos – depois de ter comido os feitos pelos imigrantes sírios de Foz – serem deliciosos e muito versáteis (existem mil e um recheios salgados e doces possíveis, e muitos outros que você vai inventar depois de fazer o seu!). É muito simples, gravamos como fazer para ficar ainda mais fácil!

A Receita

Viu como é simples de fazer?

Mas… Por que fazer seu próprio pão se você pode comprar na padaria?

Essa é a ideia que apresentamos no primeiro post, Revolução: faça você mesmo! (se não viu é só clicar ai!), é que:

Fazermos nosso próprio pão – até para quem já cozinha em casa como nós – foi surpreendente. Ver a a massa crescendo, a transformação dentro do forno e o sabor no final de pãozinho caseiro foi incrível! E como disseram meus amigos – os dois padeiros caseiros veteranos-: fazer pão é também uma questão de tempo para si próprio e para reflexão (muitas vezes crítica) sobre os contextos nos quais estamos inseridos, uma forma de diminuir o stress e fazer uma reconexão entre o eu e o mundo. Por essas e outras, venha fazer parte da Revolupão!

João Gilberto Saraiva. Revolução: faça você mesmo!

Imagem do início: Eu e Erielma em frente a doceria Albayan no bairro árabe de Foz do Iguaçu.

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Contos e Crônicas

Cinelândia

Os mil passos simultâneos que entram e saem quando a porta abre é o movimento cotidiano da estação no centro do Rio de Janeiro, só que hoje ela é habitada pela calma dominical. Apenas eu e um casal de turistas estrangeiros — americanos, alemães? — desembarcamos do vagão gelado no piso gasto, uma senhora com olhos cansados não adentrou no metrô, segue esperando alguém. Depois de passar a roleta da saída, vou vencendo o longo lance de escada para chegar efetivamente à Cinelândia. Passo por uma jovem negra compenetrada, suas tranças claras, por algum motivo penso numa rainha egípcia. Lá em cima a paisagem que já vi tantas vezes, de um lado o belo Teatro Municipal, do outro os pombos sobre o monumento a Floriano Peixoto, ao fundo a Câmara e o histórico bar Amarelinho, nos bancos alguns mendigos acordando. Da rua entre o teatro e a câmara de vereadores vem caminhando um homem vestido a caráter para o sol das nove da manhã, sandália, bermuda e uma camisa branca cruzada por uma faixa diagonal preta, como se um motorista tivesse esquecido de tirar o cinto de segurança ao sair do carro. Esse uniforme sempre me remeteu a meu pai, e especialmente a meu avô — que foi enterrado com a bandeira do seu time de devoção —, mas hoje me levou além.

Ontem conversei com alguém com a saudade inscrita no peito sobre seu pai, hoje me dei conta que eu, meu pai e avô somos três gerações de sotaque potiguar que nos aventuramos pelo Rio de Janeiro. E se hoje do agitado polo de cinemas, bares e restaurantes do início do século XX só resta o Odeon e algumas outras casas, o filme do nosso encontro só pode ser rodado na metragem da imaginação. Da esquina do velho Amarelinho dobra um rapaz garboso com o seu paletó dominó, terno e calça brancos, botões e sapatos negros. O andar é ereto, mesmo sendo pouco depois do grave acidente com o caminhão. Seus sonhos o trazem de volta a guerra, mas ele nem pensa nisso agora. Segura os vinténs no bolso e cuida para não sujar a sua roupa de domingo enquanto acelera um pouco o passo para não perder o próximo bonde. Da mesma rua do torcedor vem outro homem, os últimos botões da camisa verde clara estão abertos, a cabeleira e calça de brim cor bege balançam a cada passo das sandálias franciscanas. Ele olha por cima dos transeuntes, para o grande prédio da Biblioteca Nacional. Alguém lhe entrega um panfleto pedindo eleições, ele agradece, mas nem lê, coloca no bolso e segue em direção à avenida Rio Branco.

BAR AMARELINHO DA CINELÂNDIA - Guia Cultural Centro do Rio
Bar Amarelinho, Cinelândia. Fonte: Guia Cultural do Centro do Rio

E ali no coração da Cinelândia nos encontramos. Ali não está o velho Odilon que conheci consertando um rádio ao mesmo tempo em que escutava o jogo em outro. Nem meu pai, Gilberto, que leva a vida desde que me entendo por gente com seus cabelos grisalhos, suas invenções e brincadeiras. Lá são dois jovens que sequer tem ideia de que daqui uns anos serão pai e décadas depois o seu filho — e no caso do meu avô, também o neto — passará pela mesma praça tão longe de casa. Minha vontade é enchê-los de perguntas. Quero saber se do alto do Mosteiro São Bento dá para ver que as embarcações estacionadas na noite são uma constelação flutuante sobre a baía de Guanabara ou se isso já foi escondido por prédios altos. Me interessa o que acharam do Rio de Janeiro, e ali do centro. Perguntar se também lembraram da Ribeira e das embarcações que atravessavam o Rio Potengi ao ver as marcas d’água no cais esverdeado das barcas que vão para Niterói. Descobrir se meu avô começou mesmo a ser cruzmaltino da maca do hospital militar no qual ficou internado por tanto tempo.


Cinelândia por volta dos anos 1950. Fonte: Acervo do Arquivo Nacional Blog Saudade do Rio

Mas é claro que eles não me respondem, somos uns para os outros fantasmas sob sol que se vão no mesmo vento em que chegaram. Devo ter ficado uns trinta segundos parado olhando fixamente para o nada, porque enquanto guardo para mim as perguntas, percebo que o homem de bermuda e camisa de futebol já está bem próximo. Sem ter saído completamente do encontro com Gilberto e Odilon decido cumprimentá-lo. — Vascão! Ele responde o mesmo, um pouco assustado com meu contato repentino, e começa a descer as escadas da estação. Li uma vez um sábio italiano que dizia cada cidade não é uma, mas sim muitas habitadas não apenas por pessoas, mas também memórias, sentimentos, ideias. Quanto mais levo meu passo manco pelo mundo, mais sou levado a crer que ele está certo.

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Dicas literatura

Pequeno livrão

Santiago Nasar contou-lhe então o sonho, mas ela não prestou atenção às árvores. -Todos os sonhos com pássaros são de boa saúde – disse. Viu-o da mesma rede e na mesma posição em que eu a encontrei prostrada pelas últimas luzes da velhice, quando voltei a esta terra esquecida, tentando reconstituir com tantos estilhaços disperses o espelho quebrado da memória.

Gabriel García Márquez. Crônica de uma morte anunciada. Primeira página.

Há muito tempo que Gabriel García Márquez é celebrado por dois dos seus grandes livros, “Cem anos de solidão” (1967) e “O amor nos tempos do cólera” (1985). O que se tornou ainda mais forte depois que o escritor colombiano recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1982 (justiça plena a sua escrita e a literatura latino-americana!) e veio a falecer em 2014. Realmente esses dois clássicos do realismo fantástico são obras primas, marcantes e extremamente bem escritas. No entanto, esses não são os meus livros prediletos de García Márques. Prefiro outros dois outros livros nos quais ele usou a maestria de sua imaginação e crítica política e social combinadas com sua incrível técnica de narrativa e criação de personagens: “O Outono do Patriarca” (1975) e Crônica de uma morte anunciada (1981). O primeiro delas fica para outro dia, hoje é dia de tratar desse pequeno livrão!

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Capa de uma edição antiga da obra

E então, que morte é essa que já está anunciada na capa? ( não chega nem a ser um spolier!) Já na primeira página do livro você fica sabendo que Santiago Nasar, foi acusado de ter desonrado Ângela e que todo o seu vilarejo sabe de uma vingança iminente, mas nada acontece – ninguém se move para efetivamente salvá-lo. Os irmãos gêmeos de Ângela, Pedro e Paulo, deram fim a vida de Nasar – que é inocente da acusação – numa fatídica segunda-feira.

No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30 da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo.

Primeira frase do livro.

Sabendo disso de cara, você se pergunta: por que vou ler esse livro? A resposta também se apresenta desde as primeiras linhas. O que e quando aconteceu você já sabe, o grande X é como. E esse como é contado brilhantemente por um dos maiores escritores do século XX em pouco mais de cem páginas. Você vai ler pelos olhos de um detetive, que vai e volta no tempo, as visões, memórias e versões de vários personagens do vilarejo, da mãe vidente de Nasar até os irmão assassinos, passando pelo padre e a própria Ângela numa trama que vai ficando cada vez mais curiosa e instigante. Não sei se você sabe, mas Gabo (apelido do autor) não foi apenas um escritor magistral, mas também um exímio jornalista.

Ninguém tinha a certeza de ele se referir ao estado do tempo. Muita gente coincidia na recordação de que era uma manhã radiante com uma brisa marinha que chegava por entre os bananais, como era de admitir que assim fosse num bom fevereiro daquela época. Mas a maioria estava de acordo em que fazia um tempo fúnebre, com um céu turvo e baixo e um cheiro intenso a águas paradas, e que no preciso instante da desgraça caía uma chuva miúda como a que Santiago vira no bosque do sonho.

Ainda na primeira página

Há quem prefira os grandes clássicos – os exercícios perfeitos dos grandes mestres (como disse outro gênio da literatura, Roberto Bolaño) – mas, com certeza, esse pequeno livrão merece sua leitura!

Capa da edição brasileira atual da editora Record

Para saber mais:

  • No Brasil, Crônica de uma morte anunciada faz parte do catálogo da editora Record e também está disponível em ebook.
  • Há muitas e muitas versões do livro – em português e espanhol – circulando nas bibliotecas e sites.

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Dicas Música

Ouvidos para ler o mundo

Se um único post ou livro ou filme ou disco tivesse que unir muito do que vivemos, debatemos, sonhamos e sentimos neste início de século XXI, sobre o que falaria? Epidemias, migração, amor, falta de comunicação, cidades gigantes, guerras, internet, drogas, fronteiras naturais e artificiais, poluição? Seriam muitos e muitos temas. E qual seria a língua utilizada? O onipresente inglês? O francês? A língua espanholas ou a portuguesa? E se falasse todas elas ao mesmo tempo, juntando rock, reggae, ska, punk e salsa? Surpreendentemente há um disco que reúne tudo isso, e que já tem pouco mais de vinte anos de vida.

Capa do álbum.

Clandestino (1998) é o primeiro álbum solo de Manu Chao, músico francês, filho de espanhóis e cidadão do mundo. Ele é essencialmente um ativista. Como bem disse uma matéria de jornal:

Manu Chao não tem gravadora; não faz turnês como as dos artistas de sua categoria; tem ofertas para tocar nos melhores festivais do mundo, mas não quer; não se interessa por entrevistas; não lança discos; não aparece para receber prêmios; não usa celular…
Tudo isso não o impede de estar fazendo coisas o tempo todo. Você pode encontrá-lo atuando num bar de bairro, sem avisar, ou camuflado com outro nome. Ou escutar suas novas canções em seu site

Carlos Marcos, jornalista do El País (clique para abrir a matéria)

Assim como Manu Chao, o álbum de dezesseis músicas atravessa ritmos músicais e países, recortando e colando trechos de discursos e canções de vários estilos sem abrir mão do seu violãozinho e de uma pegada de crítica social. Nas músicas há trechos de manifestos do Exército de Libertação Nacional tratando de justiça social, da Rádio França Internacional discutindo o avanço da poluição, a narração de um gol do Flamengo, pedaços de telenovela mexicana e citações de canções de todo tipo de artista (incluindo os Rolling Stones).

Clipe oficial da primeira música do álbum.

A sonoridade em geral, é a de uma roda de violão com batida reggae que produz um mantra no qual Manu Chao declama e canta palavras simples, mas muito bem afiadas sobre o mundo que nos cerca. Isso tudo com a ajuda de percussão, baixo e um Dj que dispara samplers que ao mesmo tempo encorpam e modificam o que escutamos. A ideia é criar um clima envolvente entre batidas que se repetem e se transformam ao longo das músicas, indo e voltando em sons e temáticas. A vida do imigrante ilegal é um dos temas que ele aborda diversas vezes, como em Desaparecido – a segunda música do álbum:

Me llaman el desaparecido
Cuando llega ya se ha ido
Volando vengo, volando voy
Deprisa deprisa a rumbo perdido.

Cuando me buscan nunca estoy
Cuando me encuentran yo no soy
El que está enfrente porque ya
Me fui corriendo más allá
Me dicen el desaparecido
Fantasma que nunca está
Me dicen el desagradecido
Pero esa no es la verdad
Yo llevo en el cuerpo un dolor
Que no me deja respirar
Llevo en el cuerpo una condena
Que siempre me echa a camina

Me chamam de desaparecido
Que quando chega já se foi
Voando eu venho, voando vou
Depressa, depressa a rumo perdido

Quando me procuram nunca estou
Quando me encontram eu não sou
O que está na frente porque já
Fui correndo mais pra lá
Me chamam de desaparecido
Fantasma que nunca está
Me chamam de desagradecido
Mas essa não é a verdade
Eu levo no corpo uma dor
Que não me deixa respirar
Levo no corpo um castigo
Que sempre me põe pra caminhar

Envolvente, politizado, crítico e divertido, esse é o Clandestino de Manu Chao. Vale prestar atenção ponto de vista que ele apresenta sobre as migrações, o aquecimento global, a política global e muitas outras questões. Para escuta-lo completo no Youtube, é só clicar abaixo:

Álbum completo na conta oficial de Manu Chao no Youtube

E para conhecer mais?

Site, Instagram e Twitter oficial de Manu Chao. Obs: dá para escutar todos os álbuns e canções dele no site!

“Manu Chao, crônica do astro que virou as costas ao sistema” (03 abr. 2020 Carlos Marcos, El País Brasil)

Manu Chao e a música sem fronteiras – (Gazeta do povo, Cristiano Castilho)

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Dicas Educação

Onde acho este assunto? 16 opções para professores e alunos

Nos dias de planejamento na escola ou de estudo em casa, é muito comum professores e alunos se perguntaram onde conseguir determinado material – seja um texto, vídeo, slide, jogo interativo, etc. – sobre certo assunto que precisam. Agora em tempos de isolamento social por conta do novo coronavírus e de aulas e tarefas escolares online, a necessidade é ainda maior.

Aqui vai um guia de sites úteis (GRATUITOS!) para conseguir material para aulas e estudos que elaborei e que pode ser utilizado por professores e alunos (especialmente do Ensino Fundamental Anos Finais e Médio). Está organizado pelos tipos de sites e tem um breve comentário sobre cada opção apresentada.

Portais de conteúdos e questões

1. Toda Matéria – Portal com conteúdos em texto e imagem organizados por matérias de todo Ensino Fundamental e Médio (menos Ensino Religioso), além de uma página especial sobre o ENEM com dicas e outras informações importantes. A maior parte dos textos é produzida por professores, o que garante um padrão mínimo de qualidade. É bem útil para resumos de assuntos.

2. Brasil Escola e UOL Vestibular – Dois sites que são ao mesmo tempo blogs de dicas e notícias sobre ENEM e vestibulares, como também permite navegar por temas (simulados, planos de aula, exercícios, etc.) e também sites específicos para cada disciplina (assim como o Toda Matéria) em que se pode fazer pesquisas. A maior parte do conteúdo é elaborada por professores – há textos e videoaulas e destaco que há material especifico para docentes, pais e alunos também.

3. Mundo Educação Bol – Outro portal ligado a UOL que organiza conteúdos e exercícios por disciplina. Há também notícias e atualidades, além de páginas específicas de exercícios para cada disciplina e assunto.

4. Infoescola – Portal que segue a mesma lógica que os anteriores, mas tem um menu mais bem organizado sobre os temas. Por exemplo, dentro de cada disciplina há um sublista com todos os assuntos dela que o site possui. Além disso, tem uma página específica só de exercícios organizas por assunto. Um outro destaque é que tem páginas para temas que atravessam várias disciplinas ao mesmo tempo como sexualidade, drogas, economia, sociedade, etc.

5. Estudo Prático – Portal que organiza conteúdos e curiosidades em textos e imagens por disciplinas, tem textos relativamente curtos, mas bem ilustrados. O site como um todo tem um visual agradável, é útil para pesquisar resumos básicos sobre determinada matéria.

6. Guia do Estudante Abril – Um portal feito pela editora para abrigar conteúdos educacionais. A parte gratuita dá acesso a um blog sempre atualizado com dicas de outros sites educacionais, estratégias de estudo, questões do ENEM, cursos universitários e carreiras, entre outros.

Enciclopédias

7. Wikipédia – Uma velha conhecida de estudantes e professores, mas geralmente subutilizada. Nem todo mundo explora os portais (clique e veja) dentro da Wikipédia, há páginas específicas com um mundo de imagens, livros, calendários temáticos, linhas do tempo. Por exemplo, há portais sobre tecnologia, geografia, ciências e saúde, história, entre outros.

8. Escola Britannica MEC – A famosa enciclopédia em versão online, há espaço para pesquisas de verbetes, atlas, dicionário, videoteca, jogos, etc. Nela é possível navegar em páginas temáticas de cada disciplina e é uma das poucas que tem um espaço específico dedicado a Religião.

9. Enciclopédia Itaú Cultural – Ela aborda especificamente o mundo das artes (artes visuais, cinema, música, dança, literatura e teatro). Ela tem verbetes sobre os mais diversos assuntos e ainda notícias, curiosidade sobre obras, exposições e outras temáticas.

10. Enciclopédia Latino-americana – Uma enciclopédia organizada pela Editora Boitempo para tratar da América Latina (história, cultura, geografia, gastronomia, ciência e tecnologia, entre outros temas). Permite uma pesquisa geral, e também um passeio por mapas, estatísticas, países e pessoas.

Vídeos, imagens, slides e planos de aula

11. Youtube Edu – Quase todo mundo já usou o Youtube para aprender sobre algo, seja como abrir um pote de azeitona ou resolver um desafio de matemática, mas pouca gente sabe que há dentro da plataforma uma página só para aulas. Basicamente esse espaço reúne vídeos feitos por inúmeros canais educacionais de todas as disciplinas. Há playlists organizadas por ano letivo do Fundamental Anos Finais (6º, 7º, 8º e 9º ano) e também do Ensino Médio (1ª, 2ª e 3ª série). É uma dica valiosa para quem quer perder tempo e ir direto no que está procurando!

12. Slideshare – Portal de slides que reúne material enviado pelos usuários, nele há milhões de opções acessíveis através de pesquisa. Quando você procura um assunto ou palavra aparecem centenas de opções, cabe a você escolher o que é mais útil. Uma única desvantagem do Slideshare é que não é tão simples baixar o slide para seu computador ou telefone, mas é fácil ver na página de qualquer dispositivo.

13. Slides da Secretaria de Educação de Pernambuco – É um acervo de fácil acesso em que você pode baixar slides de aulas para todas as disciplinas organizado por ano letivo. É muito útil, especialmente para professores!

14. Biblioteca Digital Mundial – Instituição ligada a ONU e que disponibiliza milhões de textos, imagens, sons e vídeos sobre 193 países no período entre a Pré-História e o presente. Reuni material online guardado em instituições do mundo todo. Tem linhas cronológicas e mapas interativos muito bem produzidos. É útil para achar documentos, mapas, vídeos, fotografias, etc. para serem utilizadas em aula ou para trabalhos escolares.

15. Google Acadêmico – Se você quer pesquisas mais avançadas sobre determinado tema, melhor que o Google é o Google Acadêmico um espaço que acessa revistas, artigos e pesquisadores sobre os mais variados assuntos das ciências humanas, exatas, biológicas, etc. Vale quando se quer um aprofundamento em algum tema de interesse.

16. Portal do Professor MEC – Site do Ministério da Educação que abriga planos de aula, materiais de estudo, informações sobre experiências, cursos, links para sites específicos. É um conteúdo mais indicado para professores em busca de conteúdo e ideias para aulas, bem como, novos sites educacionais – por exemplo, esse sobre vida e obra de Machado de Assis.



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Contos e Crônicas

Doze e vinte

A avenida esvaziada sob o sol que divide o céu em duas partes, meio-dia e os olhos acostumados ao alvoroço estranham a quietude. Retinas em direção ao relógio da praça, doze e um e em qualquer outra ocasião elas encarariam uma multidão que se acotovelaria entre camelôs e lojas, os ouvidos imersos na algazarra de chamados e promoções do comércio popular. “Olha a castanha, o milho… Barato é aqui, barato é só hoje… 1 real, apenas 1 real”. Doze e dois e ele lembra que esses são outros tempos, quase ninguém se arrisca a sair de casa sem necessidade. Quase porque lá no bar da esquina estão os mesmos velhos de sempre, seus cigarros e copos americanos cheios até a metade acalentados por um brega antigo. Doze e três e ele acha graça em pensar que mesmo que um dia o mundo acabe eles devem continuar exatamente ali, bebendo e conversando como se nada tivesse acontecido. No entanto, aconteceu, doze e quatro e cadê os amigos, cadê os vendedores para oferecer um bico, cadê as madames e donas de casa e suas ofertas generosas, cadê as pessoas. Estão em casa, ele sabe, e se isso é um grande problema para a economia – como disse ontem a noite o ministro na televisão daquele mesmo bar da esquina – é ainda mais grave para quem não tem casa. Doze e cinco, a fome não consulta o relógio, mas avisa que já é hora.

Ele começa a subir a Avenida Rio Branco, os passos decididos encontram lojas, sebos e clínicas populares fechadas, as lanchonetes também não descerraram as grades, não há nem papelão ou latinhas para juntar às doze e seis. Alguns cruzamentos depois, um casal de mãos dadas vindo na direção contrária, o homem ajusta o relógio no pulso. Doze e sete, ele aperta mais forte a mão da esposa quando se depara com ele, mas seguem sem desviar de rota. É estranho, é estranho, um sentimento lhe vem. Até um dia desses ele era um fantasma pelo qual as pessoas olhavam através, mais ignoravam do que temiam. Agora é um ET que desperta medo e algum nojo, uma espécie de ameaça ambulante. Doze e oito e essas ideias lhe fazem lembrar da Dona Carmelita, e essa memória faz com que ele retorne pelo caminho que vinha e entre na Rua João Pessoa.

“Apesar da situação está tensa senhora, a verdade que desde que isso tudo começou” – os dedos do sargento desenham no ar um círculo abarcando as lojas da avenida vazia – “não tem tanta ocorrência”. Doze e nove e ela, no banco de trás, assente com a cabeça e explica que desde então também não há movimento na loja, e que nem sabe porque o patrão tá mantendo ela aberta. O mostrador digital do rádio marca doze e dez. “Tudo vazio, nessas horas os meliante aproveita”, comenta o policial no volante enquanto faz o carro lentamente contornar uma esquina. “Olha ali sargento, um peça rara”. Doze e onze e o motorista aperta os olhos em direção ao final da rua. A viatura foi chegando devagar, e de repente resolveu parar. Um dos caras saiu de lá de dentro já dizendo: “Compadre perdeu, e se eu tiver que procurar você está fodido”.

Doze e quinze, uma esquina e duas igrejas, de um lado a Catedral Nova e sua arquitetura moderna, do outro o velho cinema convertido em Igreja Internacional. As portas de ambas se abrem todos os dias para a Avenida Deodoro da Fonseca, mas hoje não. O rádio do carro anuncia a hora certa, doze e dezesseis, numa terça-feira com cara de feriado, nem os fiéis católicos e evangélicos de sempre, sequer os transeuntes do centro que a todo momento passam de lá para cá. Só estão por perto os dois últimos voluntários que organizam as caixas de isopor na mala do automóvel. São eles que veem o mendigo retardatário mancar na direção do lugar em que estavam até a pouco entregando cafés da manhã. “Cheguei atrasado?” O homem de máscara que organiza as caixas, olha o relógio de pulso – doze e dezessete – mas espera que a mulher responda ao mendigo. “Chegou, mas vou ver o que tem para você”. Ela habilmente abre sacolas e balança garrafas para verificar se ainda tem algo. Doze e dezoito, o homem observa com mais cuidado o recém-chegado, uma marca de pisada na altura da barriga, um rasgo e uma marca de sangue perto colarinho. Ele afasta a máscara: “Você brigou?” No lugar de uma resposta, uma outra pergunta: “A Dona Carmelita veio?” Os dois se entreolham e a mulher espera um pouco para responder. “Não veio não, ela tá de quarentena em casa, fraquinha daquele jeito é perigoso demais sair”. Doze e dezenove, depois de revirar sacolas e caixas de isopor, ela achou um pão e serviu junto de um copinho plástico de suco de uva de caixa. Ao se aproximar nota as marcas na roupa e corpo dele: “Ei, o que aconteceu? Bateram em você?”. Ele balança a cabeça sem afirmar ou negar, só para afastar o assunto. Ele recebe a comida e se senta para comer pensando na Dona Carmelita, nas suas bênçãos e conselhos, no seu porte frágil e no seu coração imenso.

Os voluntários se despedem e o carro se vai, ele continua sentado no meio-fio da avenida vazia comendo. Doze e vinte e ele imagina que a Dona Carmelita deve ter rezado de algum lugar para a mulher ter gritado com os policiais que não era ele quem tinha pego a bolsa. Ali, sozinho, deseja que a velha senhora esteja bem e a salvo em casa.

Revisão: Maria José/Arthur Duarte (Twitter)
Referência incidental: música “Tribunal de Rua” escrita por Marcelo Yuka e tocada pelo O Rappa (Youtube)

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Dicas Educação

Tempo de aprender – Cursos online do IFRS!

Nestes tempos de quarentena muita gente já cansou de repetir as mesmas ações, comer, dormir, ver filmes, abrir as redes sociais, jogar, etc. Professores e alunos (se já não estiverem muito envolvidos com aulas e tarefas online) podem até já estar com saudade da sala de aula e sua rotina.

É um bom momento para procurar novas possibilidades, uma delas é a realização de cursos online de assuntos que sempre quisemos aprender e nunca tivemos tempo (ou estávamos mesmo é com preguiça). Uma opção que conheci e usei recentemente foram os Cursos Online do IFRS através da plataforma Moodle. São cursos GRATUITOS que você pode fazer do seu computador e/ou celular e que tem certificado (vale pelo conhecimento e pelo currículo!)

Há opções nas mais diversas áreas: Ambiente e Saúde, Ciências Exatas, Ciências Humanas, Educação, Gestão e Negócios, Idiomas, Informática, Produção Alimentícia, Recursos Naturais e Turismo e Hospitalidade.

Eu realizei o curso Possibilidades Pedagógicas dos Blogs na Educação – Turma 2020A (20 horas) e gostei bastante.

Tem material em vídeo, texto, desenhos, exercícios teóricos e práticos sobre o tema, tudo muito bem guiado com um passo-a-passo de cada etapa. E um detalhe importante: você não precisa fazer o curso todo de uma vez, pode fazer etapa por etapa na sua velocidade – ir e voltar quando quiser. No geral, o prazo máximo para realização do curso é de alguns meses. Vale muito a pena aproveitar esse tempo de quarentena para começar um curso do seu interesse. Veja algumas opções de Educação, Informática e Idiomas:

HTML: Introdução ao desenvolvimento de páginas web – Turma 2020A

Programação Básica com Java I – Turma 2020A

História do Brasil – Turma 2020A

Geografia e Geopolítica na Atualidade – Turma 2020A

Abordagens Pedagógicas Modernas na Educação a Distância – Turma 2020A

Audiovisuais: arte, técnica e linguagem – Turma 2020A

Educação a Distância – Turma 2020A

Quer conhecer todos as áreas e cursos disponíveis? Só clicar no botão abaixo:

Não perca essa oportunidade, quarentena também é TEMPO DE APRENDER!

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Contos e Crônicas literatura

Cacto

Um cacto nasceu na calha
Passem de longe, ubers, ônibus, rio de aço do tráfego
Um cacto ainda desbotado
ilude a polícia, rompe o concreto
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que um cacto nasceu.
Sua cor não se percebe
Suas flores não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feio. Mas é realmente um cacto.
Sento-me no chão da capital do estado às cinco horas da tarde e lentamente passo os olhos nessa forma insegura.
De lado das telhas, nuvens maciças avolumam-se
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico
É feio. Mas é um cacto. Furou o concreto, o tédio, o nojo e o ódio.

João Gilberto Saraiva.

Desde que voltei a morar no bairro de minha infância, esse cacto nascido no teto da casa vizinha – ao lado da janela do meu quarto – me impressiona. Nesses dias de quarentena, fiz essa pequena releitura (uma homenagem) de A Flor e a Náusea, poema de Carlos Drummond de Andrade publicado no livro A Rosa do Povo de 1945 . Um dos meus livros favoritos de poesia! Quer conhecer esse poema escrito no contexto de distanciamento social, aflição e crítica social da Segunda Mundial? Veja essa leitura do poema original lançada em vídeo pelo Canal Livrão:

Quer conhecer mais sobre Drummond, o mais conhecido poeta brasileiro e um dos maiores poetas da língua portuguesa? Veja aqui seu perfil na Wikipédia.