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Cinelândia

Os mil passos simultâneos que entram e saem quando a porta abre é o movimento cotidiano da estação no centro do Rio de Janeiro, só que hoje ela é habitada pela calma dominical. Apenas eu e um casal de turistas estrangeiros — americanos, alemães? — desembarcamos do vagão gelado no piso gasto, uma senhora com olhos cansados não adentrou no metrô, segue esperando alguém. Depois de passar a roleta da saída, vou vencendo o longo lance de escada para chegar efetivamente à Cinelândia. Passo por uma jovem negra compenetrada, suas tranças claras, por algum motivo penso numa rainha egípcia. Lá em cima a paisagem que já vi tantas vezes, de um lado o belo Teatro Municipal, do outro os pombos sobre o monumento a Floriano Peixoto, ao fundo a Câmara e o histórico bar Amarelinho, nos bancos alguns mendigos acordando. Da rua entre o teatro e a câmara de vereadores vem caminhando um homem vestido a caráter para o sol das nove da manhã, sandália, bermuda e uma camisa branca cruzada por uma faixa diagonal preta, como se um motorista tivesse esquecido de tirar o cinto de segurança ao sair do carro. Esse uniforme sempre me remeteu a meu pai, e especialmente a meu avô — que foi enterrado com a bandeira do seu time de devoção —, mas hoje me levou além.

Ontem conversei com alguém com a saudade inscrita no peito sobre seu pai, hoje me dei conta que eu, meu pai e avô somos três gerações de sotaque potiguar que nos aventuramos pelo Rio de Janeiro. E se hoje do agitado polo de cinemas, bares e restaurantes do início do século XX só resta o Odeon e algumas outras casas, o filme do nosso encontro só pode ser rodado na metragem da imaginação. Da esquina do velho Amarelinho dobra um rapaz garboso com o seu paletó dominó, terno e calça brancos, botões e sapatos negros. O andar é ereto, mesmo sendo pouco depois do grave acidente com o caminhão. Seus sonhos o trazem de volta a guerra, mas ele nem pensa nisso agora. Segura os vinténs no bolso e cuida para não sujar a sua roupa de domingo enquanto acelera um pouco o passo para não perder o próximo bonde. Da mesma rua do torcedor vem outro homem, os últimos botões da camisa verde clara estão abertos, a cabeleira e calça de brim cor bege balançam a cada passo das sandálias franciscanas. Ele olha por cima dos transeuntes, para o grande prédio da Biblioteca Nacional. Alguém lhe entrega um panfleto pedindo eleições, ele agradece, mas nem lê, coloca no bolso e segue em direção à avenida Rio Branco.

BAR AMARELINHO DA CINELÂNDIA - Guia Cultural Centro do Rio
Bar Amarelinho, Cinelândia. Fonte: Guia Cultural do Centro do Rio

E ali no coração da Cinelândia nos encontramos. Ali não está o velho Odilon que conheci consertando um rádio ao mesmo tempo em que escutava o jogo em outro. Nem meu pai, Gilberto, que leva a vida desde que me entendo por gente com seus cabelos grisalhos, suas invenções e brincadeiras. Lá são dois jovens que sequer tem ideia de que daqui uns anos serão pai e décadas depois o seu filho — e no caso do meu avô, também o neto — passará pela mesma praça tão longe de casa. Minha vontade é enchê-los de perguntas. Quero saber se do alto do Mosteiro São Bento dá para ver que as embarcações estacionadas na noite são uma constelação flutuante sobre a baía de Guanabara ou se isso já foi escondido por prédios altos. Me interessa o que acharam do Rio de Janeiro, e ali do centro. Perguntar se também lembraram da Ribeira e das embarcações que atravessavam o Rio Potengi ao ver as marcas d’água no cais esverdeado das barcas que vão para Niterói. Descobrir se meu avô começou mesmo a ser cruzmaltino da maca do hospital militar no qual ficou internado por tanto tempo.


Cinelândia por volta dos anos 1950. Fonte: Acervo do Arquivo Nacional Blog Saudade do Rio

Mas é claro que eles não me respondem, somos uns para os outros fantasmas sob sol que se vão no mesmo vento em que chegaram. Devo ter ficado uns trinta segundos parado olhando fixamente para o nada, porque enquanto guardo para mim as perguntas, percebo que o homem de bermuda e camisa de futebol já está bem próximo. Sem ter saído completamente do encontro com Gilberto e Odilon decido cumprimentá-lo. — Vascão! Ele responde o mesmo, um pouco assustado com meu contato repentino, e começa a descer as escadas da estação. Li uma vez um sábio italiano que dizia cada cidade não é uma, mas sim muitas habitadas não apenas por pessoas, mas também memórias, sentimentos, ideias. Quanto mais levo meu passo manco pelo mundo, mais sou levado a crer que ele está certo.

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Doze e vinte

A avenida esvaziada sob o sol que divide o céu em duas partes, meio-dia e os olhos acostumados ao alvoroço estranham a quietude. Retinas em direção ao relógio da praça, doze e um e em qualquer outra ocasião elas encarariam uma multidão que se acotovelaria entre camelôs e lojas, os ouvidos imersos na algazarra de chamados e promoções do comércio popular. “Olha a castanha, o milho… Barato é aqui, barato é só hoje… 1 real, apenas 1 real”. Doze e dois e ele lembra que esses são outros tempos, quase ninguém se arrisca a sair de casa sem necessidade. Quase porque lá no bar da esquina estão os mesmos velhos de sempre, seus cigarros e copos americanos cheios até a metade acalentados por um brega antigo. Doze e três e ele acha graça em pensar que mesmo que um dia o mundo acabe eles devem continuar exatamente ali, bebendo e conversando como se nada tivesse acontecido. No entanto, aconteceu, doze e quatro e cadê os amigos, cadê os vendedores para oferecer um bico, cadê as madames e donas de casa e suas ofertas generosas, cadê as pessoas. Estão em casa, ele sabe, e se isso é um grande problema para a economia – como disse ontem a noite o ministro na televisão daquele mesmo bar da esquina – é ainda mais grave para quem não tem casa. Doze e cinco, a fome não consulta o relógio, mas avisa que já é hora.

Ele começa a subir a Avenida Rio Branco, os passos decididos encontram lojas, sebos e clínicas populares fechadas, as lanchonetes também não descerraram as grades, não há nem papelão ou latinhas para juntar às doze e seis. Alguns cruzamentos depois, um casal de mãos dadas vindo na direção contrária, o homem ajusta o relógio no pulso. Doze e sete, ele aperta mais forte a mão da esposa quando se depara com ele, mas seguem sem desviar de rota. É estranho, é estranho, um sentimento lhe vem. Até um dia desses ele era um fantasma pelo qual as pessoas olhavam através, mais ignoravam do que temiam. Agora é um ET que desperta medo e algum nojo, uma espécie de ameaça ambulante. Doze e oito e essas ideias lhe fazem lembrar da Dona Carmelita, e essa memória faz com que ele retorne pelo caminho que vinha e entre na Rua João Pessoa.

“Apesar da situação está tensa senhora, a verdade que desde que isso tudo começou” – os dedos do sargento desenham no ar um círculo abarcando as lojas da avenida vazia – “não tem tanta ocorrência”. Doze e nove e ela, no banco de trás, assente com a cabeça e explica que desde então também não há movimento na loja, e que nem sabe porque o patrão tá mantendo ela aberta. O mostrador digital do rádio marca doze e dez. “Tudo vazio, nessas horas os meliante aproveita”, comenta o policial no volante enquanto faz o carro lentamente contornar uma esquina. “Olha ali sargento, um peça rara”. Doze e onze e o motorista aperta os olhos em direção ao final da rua. A viatura foi chegando devagar, e de repente resolveu parar. Um dos caras saiu de lá de dentro já dizendo: “Compadre perdeu, e se eu tiver que procurar você está fodido”.

Doze e quinze, uma esquina e duas igrejas, de um lado a Catedral Nova e sua arquitetura moderna, do outro o velho cinema convertido em Igreja Internacional. As portas de ambas se abrem todos os dias para a Avenida Deodoro da Fonseca, mas hoje não. O rádio do carro anuncia a hora certa, doze e dezesseis, numa terça-feira com cara de feriado, nem os fiéis católicos e evangélicos de sempre, sequer os transeuntes do centro que a todo momento passam de lá para cá. Só estão por perto os dois últimos voluntários que organizam as caixas de isopor na mala do automóvel. São eles que veem o mendigo retardatário mancar na direção do lugar em que estavam até a pouco entregando cafés da manhã. “Cheguei atrasado?” O homem de máscara que organiza as caixas, olha o relógio de pulso – doze e dezessete – mas espera que a mulher responda ao mendigo. “Chegou, mas vou ver o que tem para você”. Ela habilmente abre sacolas e balança garrafas para verificar se ainda tem algo. Doze e dezoito, o homem observa com mais cuidado o recém-chegado, uma marca de pisada na altura da barriga, um rasgo e uma marca de sangue perto colarinho. Ele afasta a máscara: “Você brigou?” No lugar de uma resposta, uma outra pergunta: “A Dona Carmelita veio?” Os dois se entreolham e a mulher espera um pouco para responder. “Não veio não, ela tá de quarentena em casa, fraquinha daquele jeito é perigoso demais sair”. Doze e dezenove, depois de revirar sacolas e caixas de isopor, ela achou um pão e serviu junto de um copinho plástico de suco de uva de caixa. Ao se aproximar nota as marcas na roupa e corpo dele: “Ei, o que aconteceu? Bateram em você?”. Ele balança a cabeça sem afirmar ou negar, só para afastar o assunto. Ele recebe a comida e se senta para comer pensando na Dona Carmelita, nas suas bênçãos e conselhos, no seu porte frágil e no seu coração imenso.

Os voluntários se despedem e o carro se vai, ele continua sentado no meio-fio da avenida vazia comendo. Doze e vinte e ele imagina que a Dona Carmelita deve ter rezado de algum lugar para a mulher ter gritado com os policiais que não era ele quem tinha pego a bolsa. Ali, sozinho, deseja que a velha senhora esteja bem e a salvo em casa.

Revisão: Maria José/Arthur Duarte (Twitter)
Referência incidental: música “Tribunal de Rua” escrita por Marcelo Yuka e tocada pelo O Rappa (Youtube)

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Natal

O vermelho para os carros e o verde coloca os pedestres em movimento, eles atravessam a rua em direção ao shopping de mãos dadas. Na calçada se misturam às pessoas que esperam no ponto de ônibus, aos ambulantes que anunciam seus produtos e aos que como eles apenas passam, há mais gente do que o habitual. Na televisão o comentarista do jornal disse que é porque há mais dinheiro no mercado, informação traduzida pela apresentadora do programa de variedades da seguinte forma: está chegando o Natal e você precisa correr atrás dos presentes da família. A porta automática praticamente não fecha com a quantidade de pernas que adentram o piso cinza claro e o ar refrigerado, eles seguem emaranhados na multidão pelos corredores enfeitados. Só mais uma curva para chegar ao pátio central do shopping onde se concentra a decoração de Natal com direito a árvore gigante e Papai Noel em pessoa. Há alguns passos da curva o homem sente uma mão segurando seu braço. “O senhor tem que se retirar”. O homem aponta a criança e diz ao segurança: “Vim só levar ele pra ver o Papai No…”. “O senhor tem que se retirar”. Já há uma mão no seu outro braço e um terceiro homem de terno pegando seu filho pela mão. Ele sabe que não há como argumentar com essas pessoas, o jeito é mesmo deixar serem levados até a saída.

Ficava numa rua cheia de lojas, uma das paredes colada à do banco, no vai e vem de correntistas, compradores e outros transeuntes. Por quase três meses aquelas duas vitrines de cara para a grande avenida estiveram fechadas, mas não com olhos de quem dorme. No interior do ambiente durante todo o dia estavam pessoas a reformar e a trazer os novos objetos. Os olhos fechados escondiam esses homens que correram por agosto e setembro. Seu esforço para abrir as grandes pálpebras foi justificado, as portas foram descerradas a tempo das vendas de Natal. O pai segue na avenida, o filho ficou com a mãe em outro ponto da cidade. Ele vai semi-invisível pela calçada, desviando das pessoas e olhando para o meio fio em busca do sustento. Não basta ser lata, tem de ser de alumínio. Entre o abaixar e o por no saco de estopa, seus olhos percorreram as vitrines e ali se perderam um instante. Uma nova loja acaba de abrir já com toda sua decoração de Natal pronta, um Papai Noel imenso sobre um trenó se destaca na vitrine. Junto de cada produto anunciado há um Papai Noel menor seguindo o modelo do gigante com barbas de nuvem que guia as renas como se tivesse saindo do banco vizinho para espalhar o dinheiro pelas lojas. O homem se emocionou, ali estava à oportunidade de o filho ver o enfim um Papai Noel grande e bonito, não haveriam seguranças para expulsá-los.  

Papai Noel em Centro Comercial.

O dia já se deitou e a noite seguirá de pé até que os pássaros e os rádios anunciem a nova manhã deste lado do mundo. Antes que isso ocorra o pai e seu filho caminham pelas avenidas e ruas antes cheias, mas agora de carros e passos raros. Eles já passaram por algumas lojas, mas nenhuma com um Papai Noel que se aproxime daquela para qual eles estão indo. Ele não disse ao filho onde exatamente era para não tirar a surpresa do garoto. Do começo da avenida já dá para ver a luz amarela que atravessa as vitrines e ilumina a calçada. Passo a passo eles vão olhando a decoração das lojas, mais meio quarteirão e eles chegarão no imenso Papai Noel no trenó. Pessoas saem correndo do banco ao lado da vitrine iluminada em direção a um carro parado mais a frente da rua e repentinamente um estrondo. O chão treme e o último homem que ainda não entrara se escondeu atrás do veículo para se defender dos destroços atirados para o outro lado da rua. Parece que os encapuzados se espantaram com o tamanho explosão, logo saíram em disparada. O pai não sabia o que fazer, as vitrines da loja explodiram junto com a faixada do banco. É a segunda vez que algo atrapalhava seu filho de ver o Papai Noel. Ele esconde o menino em uma entrada de loja mais recuada que as restantes e corre para ver se por um milagre o Papai Noel e o trenó estavam de pé. Contrariando a esperança não sobrou quase nada do trenó, das renas e do velhinho gigante, mas ele vê algo que chama sua atenção do outro lado da rua. Por baixo de vidros e escombros em frente ao banco foi parar um dos Papais Noel pequenos que enfeitavam a loja. Admirou por um segundo a roupa um tanto suja e a barba acinzentada pela poeira, quando foi retira-lo dos destroços percebeu alguma coisa no chão que estava por baixo dele. Não é possível, pensou, duas notas de cem, uma com a ponta chamuscada e outra perfeita. Ele até poderia sair procurando por outras, mas sabe que ali não é lugar para estar quando em breve chegassem as viaturas. O menino vai com o bom velhinho nas mãos e o pai leva os dois nos braços enquanto corre. Talvez nenhum outro, mas aquele Natal estava garantido.

Revisão: Arthur Duarte (Twitter)

Crônica retirada do livro “Natal e outras crônicas” publicado pela EDUFRN.

Disponível para download AQUI