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Negro Amor: a crônica

“Vá, se mande, junte tudo que você puder levar. Ande, tudo que parece seu é bom que agarre já.”

Rodas em movimento, pé na estrada. Conta o poeta antigo Cícero que certa vez a cidade grega de Megara se preparava para ser invadida pelo poderoso império macedônico. Não havia a mínima chance dos gregos vencerem, ou sequer resistirem aos numerosos soldados do imperador Demétrio I da Macedônia. Ante o cenário de massacre e completa destruição, os mandatários gregos ordenaram a retirada de todas as riquezas da cidade. Entre choros e lamentos, os grandes comerciantes encheram suas carroças de ouro e prata, os mais pobres enrolaram em panos seus bens mais preciosos e seguiram as ordens de evacuação. Junto deles ia o filósofo Bias.

“Seu filho feio e louco ficou só, chorando feito fogo à luz do sol”

Há dias em que sob calor de um Sol sem nuvens chove, a água infiltra pelo teto, escorre pelas nossas paredes. Os sentimentos, as memórias e os planos futuros embotam sob garoa fina ou caudalosa tempestade. Nesses momentos, não há guarda-chuva que barre, não há sorriso que disfarce que se chove pelo lado de dentro. Eu e você sabemos disso, e esta sabedoria que marca as almas como borra de café, muitas vezes amarga os sentidos.

“Seus marinheiros mareados abandonam o mar
Seus guerreiros desarmados não vão mais lutar”

Preencher e zelar cuidadosamente o nosso museu dos infortúnios particular dá trabalho. É necessário lustrar cuidadosamente antigos ressentimentos, reexibir os filmes das decepções para ver se seguem intactos, arejar os mapas das incompreensões, por ao sol diariamente os cadernos das frustrações. Conservar e revisitar essas chagas leva tempo e sanidade.

Chega um dia que olhamos para esse museu particular e nos perguntamos: “afinal, para quê carregar tudo isso? Por que é que eu preciso mesmo dessa tralha toda?” Mesmo compreendendo que a resposta correta é: “Para nada!”, sabemos que não é tão simples se desvencilhar da nossa coleção de infortúnios. Eu mesmo comecei a pensar na minha aos quinze e só comecei a jogar fora perto dos trinta – processo que mal comecei. Seja como e quando for, este primeiro passo é significativo.

“As pedras do caminho deixe para trás
Esqueça os mortos, eles não levantam mais”

Na marcha triste dos moradores de Megara, o filósofo Bias contrastava dos demais fugitivos. Além da túnica que vestia não carregava uma sacola, nem um baú, sequer um alforje com comida. Constatando a idade do filósofo, alguém pode ter pensado que o sofrimento e a tristeza teria esfumaçado a cabeça do ancião. Quando perguntaram-lhe por que não levava nada consigo, diz Cícero que levantando as mãos ele respondeu: “Omnia mea mecum porto”. Que em bom português seria algo como: “carrego tudo que preciso”. Ele estava falando de sabedoria, sentimentos e valores, algo que toda a riqueza material acumulada no mundo não poderiam comprar.

“E não tem mais nada negro amor”

Bem, quem sou eu para duvidar dos sábios gregos. Sempre que posso vou correr pelos caminhos, deixo no chão todo o peso que carrego e sigo com meus passos mancos e velhos tênis remendados. Levo somente um pingente negro com uma frase em latim e cinco datas de aniversário. Espero ansiosamente pelo dia que Ada nascer e eu possa inscrever a sexta data.

*”Negro Amor”, canção imortalizada por Gal Costa, é uma versão de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti para a música “It’s All Over Now, Baby Blue” de Bob Dylan.

Revisão: Maria José/Arthur Duarte (Twitter)
Fotografias: acervo pessoal.

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Domben: pequena odisseia musical

Pode ser um dia de mudança ou faxina, seja qual for, por algum motivo você tem de mexer em caixas esquecidas no guarda-roupa ou dispensa. Lá estão elas , cuidadosamente encobertas pelos anos com camadas de poeira. Ao abrir cada uma delas, a surpresa com moedas, cartões de aniversário, isqueiros e outros objetos que você nem imagina de onde vieram. No meio deles um porta-cds e vem a curiosidade de descobrir o que pode ter lá dentro. Pode ser que sejam CDs de instalação de um equipamento antigo… Pode ser que sejam os takes originais das gravações da banda que você tocava 12 anos atrás.

E ali você volta no tempo, se vê andando com seus amigos pelo escuro das ruas da Ribeira com instrumento musical nas costas esperando o dia amanhecer. Hoje cada um tem uma profissão diferente e moram em pontos distintos do país. Reacende o sabor e cheiro da cerveja nos shows em espaços apertados, da vida corrida entre faculdade e trabalho juntando grana para gravar. Será que ainda sei tocar aquela música daquele jeito? Por onde anda aquela palheta, e a escaleta?Lembra da guitarra, do baixo, das baquetas… dos sonhos e projetos dos 20 e poucos anos, tanto dos que ficaram pelo caminho, quanto dos que conseguiram ser realizados. Bem, essa é a história de um deles. Depois de mais de uma década, enfim as duas músicas gravadas vão ao ar nas plataformas digitais.

Em 2008, a banda Domben realizava uma temporada de shows em Natal e Mossoró, nos tradicionais pequenos e médios palcos de rock potiguar e na casa de amigos. Levantaram uma grana e gravaram com Dante Oliveira utilizando a estrutura do estúdio DoSol na capital potiguar. Já em 2020, Cássio Augusto achou os takes originais e levou para o Estúdio Espelunca em Porto Alegre – onde hoje ele mora. O produtor Pedro Mariano Wortmann fez, junto da banda, um primoroso trabalho de mixagem e masterização dos áudios originais de voz e instrumentos.

Hoje, doze anos depois de gravadas, temos a oportunidade de escutar “Fardo” e “Adeus Prazer” em todas as plataformas digitais. É mais que a ativação de uma lembrança, é a celebração e o justo encerramento de um ciclo importante de nossas vidas!

Domben
Cássio Augusto Ramos – voz, guitarra, escaleta;
Guilherme Oliveira – voz, guitarra;
João Gilberto Saraiva – teclados;
Moysés Gama – baixo;
Waldemar Ramos – bateria.

Texto: João Gilberto Saraiva.
Fotos: Bilico.