Categorias
Contos e Crônicas literatura

Cacto

Um cacto nasceu na calha
Passem de longe, ubers, ônibus, rio de aço do tráfego
Um cacto ainda desbotado
ilude a polícia, rompe o concreto
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que um cacto nasceu.
Sua cor não se percebe
Suas flores não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feio. Mas é realmente um cacto.
Sento-me no chão da capital do estado às cinco horas da tarde e lentamente passo os olhos nessa forma insegura.
De lado das telhas, nuvens maciças avolumam-se
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico
É feio. Mas é um cacto. Furou o concreto, o tédio, o nojo e o ódio.

João Gilberto Saraiva.

Desde que voltei a morar no bairro de minha infância, esse cacto nascido no teto da casa vizinha – ao lado da janela do meu quarto – me impressiona. Nesses dias de quarentena, fiz essa pequena releitura (uma homenagem) de A Flor e a Náusea, poema de Carlos Drummond de Andrade publicado no livro A Rosa do Povo de 1945 . Um dos meus livros favoritos de poesia! Quer conhecer esse poema escrito no contexto de distanciamento social, aflição e crítica social da Segunda Mundial? Veja essa leitura do poema original lançada em vídeo pelo Canal Livrão:

Quer conhecer mais sobre Drummond, o mais conhecido poeta brasileiro e um dos maiores poetas da língua portuguesa? Veja aqui seu perfil na Wikipédia.