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Contos e Crônicas

Doze e vinte

A avenida esvaziada sob o sol que divide o céu em duas partes, meio-dia e os olhos acostumados ao alvoroço estranham a quietude. Retinas em direção ao relógio da praça, doze e um e em qualquer outra ocasião elas encarariam uma multidão que se acotovelaria entre camelôs e lojas, os ouvidos imersos na algazarra de chamados e promoções do comércio popular. “Olha a castanha, o milho… Barato é aqui, barato é só hoje… 1 real, apenas 1 real”. Doze e dois e ele lembra que esses são outros tempos, quase ninguém se arrisca a sair de casa sem necessidade. Quase porque lá no bar da esquina estão os mesmos velhos de sempre, seus cigarros e copos americanos cheios até a metade acalentados por um brega antigo. Doze e três e ele acha graça em pensar que mesmo que um dia o mundo acabe eles devem continuar exatamente ali, bebendo e conversando como se nada tivesse acontecido. No entanto, aconteceu, doze e quatro e cadê os amigos, cadê os vendedores para oferecer um bico, cadê as madames e donas de casa e suas ofertas generosas, cadê as pessoas. Estão em casa, ele sabe, e se isso é um grande problema para a economia – como disse ontem a noite o ministro na televisão daquele mesmo bar da esquina – é ainda mais grave para quem não tem casa. Doze e cinco, a fome não consulta o relógio, mas avisa que já é hora.

Ele começa a subir a Avenida Rio Branco, os passos decididos encontram lojas, sebos e clínicas populares fechadas, as lanchonetes também não descerraram as grades, não há nem papelão ou latinhas para juntar às doze e seis. Alguns cruzamentos depois, um casal de mãos dadas vindo na direção contrária, o homem ajusta o relógio no pulso. Doze e sete, ele aperta mais forte a mão da esposa quando se depara com ele, mas seguem sem desviar de rota. É estranho, é estranho, um sentimento lhe vem. Até um dia desses ele era um fantasma pelo qual as pessoas olhavam através, mais ignoravam do que temiam. Agora é um ET que desperta medo e algum nojo, uma espécie de ameaça ambulante. Doze e oito e essas ideias lhe fazem lembrar da Dona Carmelita, e essa memória faz com que ele retorne pelo caminho que vinha e entre na Rua João Pessoa.

“Apesar da situação está tensa senhora, a verdade que desde que isso tudo começou” – os dedos do sargento desenham no ar um círculo abarcando as lojas da avenida vazia – “não tem tanta ocorrência”. Doze e nove e ela, no banco de trás, assente com a cabeça e explica que desde então também não há movimento na loja, e que nem sabe porque o patrão tá mantendo ela aberta. O mostrador digital do rádio marca doze e dez. “Tudo vazio, nessas horas os meliante aproveita”, comenta o policial no volante enquanto faz o carro lentamente contornar uma esquina. “Olha ali sargento, um peça rara”. Doze e onze e o motorista aperta os olhos em direção ao final da rua. A viatura foi chegando devagar, e de repente resolveu parar. Um dos caras saiu de lá de dentro já dizendo: “Compadre perdeu, e se eu tiver que procurar você está fodido”.

Doze e quinze, uma esquina e duas igrejas, de um lado a Catedral Nova e sua arquitetura moderna, do outro o velho cinema convertido em Igreja Internacional. As portas de ambas se abrem todos os dias para a Avenida Deodoro da Fonseca, mas hoje não. O rádio do carro anuncia a hora certa, doze e dezesseis, numa terça-feira com cara de feriado, nem os fiéis católicos e evangélicos de sempre, sequer os transeuntes do centro que a todo momento passam de lá para cá. Só estão por perto os dois últimos voluntários que organizam as caixas de isopor na mala do automóvel. São eles que veem o mendigo retardatário mancar na direção do lugar em que estavam até a pouco entregando cafés da manhã. “Cheguei atrasado?” O homem de máscara que organiza as caixas, olha o relógio de pulso – doze e dezessete – mas espera que a mulher responda ao mendigo. “Chegou, mas vou ver o que tem para você”. Ela habilmente abre sacolas e balança garrafas para verificar se ainda tem algo. Doze e dezoito, o homem observa com mais cuidado o recém-chegado, uma marca de pisada na altura da barriga, um rasgo e uma marca de sangue perto colarinho. Ele afasta a máscara: “Você brigou?” No lugar de uma resposta, uma outra pergunta: “A Dona Carmelita veio?” Os dois se entreolham e a mulher espera um pouco para responder. “Não veio não, ela tá de quarentena em casa, fraquinha daquele jeito é perigoso demais sair”. Doze e dezenove, depois de revirar sacolas e caixas de isopor, ela achou um pão e serviu junto de um copinho plástico de suco de uva de caixa. Ao se aproximar nota as marcas na roupa e corpo dele: “Ei, o que aconteceu? Bateram em você?”. Ele balança a cabeça sem afirmar ou negar, só para afastar o assunto. Ele recebe a comida e se senta para comer pensando na Dona Carmelita, nas suas bênçãos e conselhos, no seu porte frágil e no seu coração imenso.

Os voluntários se despedem e o carro se vai, ele continua sentado no meio-fio da avenida vazia comendo. Doze e vinte e ele imagina que a Dona Carmelita deve ter rezado de algum lugar para a mulher ter gritado com os policiais que não era ele quem tinha pego a bolsa. Ali, sozinho, deseja que a velha senhora esteja bem e a salvo em casa.

Revisão: Maria José/Arthur Duarte (Twitter)
Referência incidental: música “Tribunal de Rua” escrita por Marcelo Yuka e tocada pelo O Rappa (Youtube)