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Pequeno livrão

Santiago Nasar contou-lhe então o sonho, mas ela não prestou atenção às árvores. -Todos os sonhos com pássaros são de boa saúde – disse. Viu-o da mesma rede e na mesma posição em que eu a encontrei prostrada pelas últimas luzes da velhice, quando voltei a esta terra esquecida, tentando reconstituir com tantos estilhaços disperses o espelho quebrado da memória.

Gabriel García Márquez. Crônica de uma morte anunciada. Primeira página.

Há muito tempo que Gabriel García Márquez é celebrado por dois dos seus grandes livros, “Cem anos de solidão” (1967) e “O amor nos tempos do cólera” (1985). O que se tornou ainda mais forte depois que o escritor colombiano recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1982 (justiça plena a sua escrita e a literatura latino-americana!) e veio a falecer em 2014. Realmente esses dois clássicos do realismo fantástico são obras primas, marcantes e extremamente bem escritas. No entanto, esses não são os meus livros prediletos de García Márques. Prefiro outros dois outros livros nos quais ele usou a maestria de sua imaginação e crítica política e social combinadas com sua incrível técnica de narrativa e criação de personagens: “O Outono do Patriarca” (1975) e Crônica de uma morte anunciada (1981). O primeiro delas fica para outro dia, hoje é dia de tratar desse pequeno livrão!

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Capa de uma edição antiga da obra

E então, que morte é essa que já está anunciada na capa? ( não chega nem a ser um spolier!) Já na primeira página do livro você fica sabendo que Santiago Nasar, foi acusado de ter desonrado Ângela e que todo o seu vilarejo sabe de uma vingança iminente, mas nada acontece – ninguém se move para efetivamente salvá-lo. Os irmãos gêmeos de Ângela, Pedro e Paulo, deram fim a vida de Nasar – que é inocente da acusação – numa fatídica segunda-feira.

No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30 da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo.

Primeira frase do livro.

Sabendo disso de cara, você se pergunta: por que vou ler esse livro? A resposta também se apresenta desde as primeiras linhas. O que e quando aconteceu você já sabe, o grande X é como. E esse como é contado brilhantemente por um dos maiores escritores do século XX em pouco mais de cem páginas. Você vai ler pelos olhos de um detetive, que vai e volta no tempo, as visões, memórias e versões de vários personagens do vilarejo, da mãe vidente de Nasar até os irmão assassinos, passando pelo padre e a própria Ângela numa trama que vai ficando cada vez mais curiosa e instigante. Não sei se você sabe, mas Gabo (apelido do autor) não foi apenas um escritor magistral, mas também um exímio jornalista.

Ninguém tinha a certeza de ele se referir ao estado do tempo. Muita gente coincidia na recordação de que era uma manhã radiante com uma brisa marinha que chegava por entre os bananais, como era de admitir que assim fosse num bom fevereiro daquela época. Mas a maioria estava de acordo em que fazia um tempo fúnebre, com um céu turvo e baixo e um cheiro intenso a águas paradas, e que no preciso instante da desgraça caía uma chuva miúda como a que Santiago vira no bosque do sonho.

Ainda na primeira página

Há quem prefira os grandes clássicos – os exercícios perfeitos dos grandes mestres (como disse outro gênio da literatura, Roberto Bolaño) – mas, com certeza, esse pequeno livrão merece sua leitura!

Capa da edição brasileira atual da editora Record

Para saber mais:

  • No Brasil, Crônica de uma morte anunciada faz parte do catálogo da editora Record e também está disponível em ebook.
  • Há muitas e muitas versões do livro – em português e espanhol – circulando nas bibliotecas e sites.