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Quem é Pink Floyd na fila do pão? – Luiz Gonzaga e o ópera forró

Calma leitor, nenhum jornalista ou historiador que se preze diria que essa frase é verdadeira. Não há qualquer indício que prove que o Rei do Baião já tenha pensado ou dito algo parecido. Mas afinal, o que quero dizer com ela então? Este texto chama atenção para um aspecto ainda não sublinhando do forró, que o conecta aos vinis e shows de rock dos anos 1970 e as casas de ópera, um gênero criado ainda século XII. Continue lendo que você vai entender melhor.

Luiz Gonzaga e Domiguinhos

Para começar, vamos fazer uma consulta breve a Wikipédia. Segundo ela:

Ópera (em italiano: significa obra, em latim, plural de “opus”, obra) é um gênero artístico teatral que consiste em um drama encenado acompanhada de música, ou seja, composição dramática em que se combinam música instrumental e canto, com presença ou não de diálogo falado. […] O drama é apresentado utilizando os elementos típicos do teatro, tais como cenografia, vestuários e atuação. No entanto, a letra da ópera (conhecida como libreto) é normalmente cantada em lugar de ser falada. A ópera é também o casamento perfeito entre a música e o teatro.

Link para o verbete completo.

Mas o que é que Luiz Gonzaga e o Pink Floyd têm haver com isso? Mesmo que você não goste, ou nem conheça qualquer coisa sobre rock, já deve ter ouvido a música Another Brick in The Wall Part II do Pink Floyd. Ela é famosa por causa do coral de crianças, aqui acolá toca no rádio ou o YouTube sugere se você estiver escutando clássicos do estilo.

Clipe da música no canal da banda, versão para filme de 1982.

A música faz parte do álbum duplo The Wall, lançado pelo grupo em 1979 e é um dos seus grandes sucessos de vendas, downloads e opinião da imprensa especializada. Esse álbum tem uma especificidade, suas 26 músicas contam a história de um personagem chamado Pink. Repletas de elementos teatrais, as composições abordam as vivências dele desde a infância até se tornar adulto. Ao longo das músicas você acompanha a superproteção da mãe, a perda do pai na Segunda Guerra, os problemas e humilhações na escola, as questões da adolescência e até o casamento de Pink.

Este tipo de álbum é classificado como um ópera rock, um tipo dentro do estilo em que é contada uma história com início, meio e fim ao longo das músicas. Há uma unidade de temas, gêneros, modos de narrar que conectam as composições de uma forma que o álbum de rock apresenta uma história conexa. Entre o final dos anos 1960 e início dos anos 1980, diversas bandas lançaram álbuns de ópera rock, dois bem conhecidos são Tommy (1969) do The Who e 2112 (1976) do Rush.

CD Luiz Gonzaga - Ao vivo - Volta pra curtir (Sony) — Passa Disco

Você deve estar se perguntando, onde é que o forró entra nesta história? O rock não foi o único gênero musical ao longo do tempo a se apropriar de elementos da ópera e da teatralidade, ela é perceptível na música de artistas de épocas e estilos variados como o grupo de rap americano The Roots e o pernambucano Cordel do Fogo Encantado.

Por falar em artistas pernambucanos, anos antes de Roger Waters começar a escrever as letras do famoso The Wall, Luiz Gonzaga já tinha lançado mais de 21 discos. No início dos anos 1970, ele era um veterano com mais de 30 anos de carreira já contava com diversos sucessos, mas um tanto esquecido pela imprensa e pelo público carioca.

Só que em 1972 o jogo virou, Gonzagão foi acompanhado em uma série especial de shows por uma banda de peso. Ela incluiu músicos fundamentais para música brasileira: Renato Piau (guitarra), Dominguinhos (sanfona), Porfírio Costa (baixo) e outros. O espetáculo chamado Luiz Gonzaga Volta para Curtir entrou em cartaz em março no prestigioso Teatro Tereza Rachel em Copacabana. Teve direção e roteiro de Jorge Salomão e Luciano Capinam, além de ambientação de outro artista de vanguarda, Oscar Ramos.

O que resultou disso? Bem, um show antológico em que o experiente Luiz Gonzaga foi acompanhado por uma banda jovem e moderna, cheia de gás e versada em estilos variados como o jazz fusion e o samba. Uma arquitetura musical que valorizou, amplificou e tornou mais complexo o forró do Gonzagão. O registro que temos a uma gravação de 15 músicas, lançada posteriormente em CD. Nelas, Luiz Gonzaga enlaça a sua própria história entre as décadas de 1910 e 1970 com a história do Brasil.

É nesse ponto que cruzamos forró com ópera, porque mais do uma simples narrativa, esse espetáculo reuniu elementos de teatro, ópera e forró. Conectou elementos variados a partir da contação de história: a Revolução de 1930, a migração nordestina para o Sudeste, conjuntura política da Ditadura Militar, contradições e transformações socioeconômicas variadas, a vida na periferia do Rio de Janeiro , a tradição oral, os causos e o cordel (de Padre Cícero a Lampião, passando pelo São João). Tudo isso sem perder o ritmo, embalando uma música na outra e indo e voltando no tempo.

Há diversas questões sobre memória, narrativa e cultura popular que um estudioso faria sobre os recortes e histórias apresentados pelo Rei do Baião, mas nesta altura é melhor deixar você leitor escutar, se deliciar e tirar suas próprias conclusões.

Seria o álbum Luiz Gonzaga -Volta para curtir o primeiro ópera forró, anos antes do famoso The Wall do Pink Floyd? Não sei, certo é que esse é um dos grandes discos da música brasileira e merece ser escutado por todos. Afinal, quem é Pink no jogo do bicho se você pode conhecer Gonzagão e a história brasileira pelos caminhos do próprio Rei do Baião?!

Música que abre o álbum, todas estão disponível na internet.

Para saber mais:
Postagem do blog Forró em Vinil sobre este álbum
Verbete de Luiz Gonzaga na Wikipédia
Trecho do livro “O fole roncou – uma história do forró” de Carlos Marcelo sobre este espetáculo de Luiz Gonzaga.

Revisão:
Maria José/Arthur Duarte (Twitter)

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Ouvidos para ler o mundo

Se um único post ou livro ou filme ou disco tivesse que unir muito do que vivemos, debatemos, sonhamos e sentimos neste início de século XXI, sobre o que falaria? Epidemias, migração, amor, falta de comunicação, cidades gigantes, guerras, internet, drogas, fronteiras naturais e artificiais, poluição? Seriam muitos e muitos temas. E qual seria a língua utilizada? O onipresente inglês? O francês? A língua espanholas ou a portuguesa? E se falasse todas elas ao mesmo tempo, juntando rock, reggae, ska, punk e salsa? Surpreendentemente há um disco que reúne tudo isso, e que já tem pouco mais de vinte anos de vida.

Capa do álbum.

Clandestino (1998) é o primeiro álbum solo de Manu Chao, músico francês, filho de espanhóis e cidadão do mundo. Ele é essencialmente um ativista. Como bem disse uma matéria de jornal:

Manu Chao não tem gravadora; não faz turnês como as dos artistas de sua categoria; tem ofertas para tocar nos melhores festivais do mundo, mas não quer; não se interessa por entrevistas; não lança discos; não aparece para receber prêmios; não usa celular…
Tudo isso não o impede de estar fazendo coisas o tempo todo. Você pode encontrá-lo atuando num bar de bairro, sem avisar, ou camuflado com outro nome. Ou escutar suas novas canções em seu site

Carlos Marcos, jornalista do El País (clique para abrir a matéria)

Assim como Manu Chao, o álbum de dezesseis músicas atravessa ritmos músicais e países, recortando e colando trechos de discursos e canções de vários estilos sem abrir mão do seu violãozinho e de uma pegada de crítica social. Nas músicas há trechos de manifestos do Exército de Libertação Nacional tratando de justiça social, da Rádio França Internacional discutindo o avanço da poluição, a narração de um gol do Flamengo, pedaços de telenovela mexicana e citações de canções de todo tipo de artista (incluindo os Rolling Stones).

Clipe oficial da primeira música do álbum.

A sonoridade em geral, é a de uma roda de violão com batida reggae que produz um mantra no qual Manu Chao declama e canta palavras simples, mas muito bem afiadas sobre o mundo que nos cerca. Isso tudo com a ajuda de percussão, baixo e um Dj que dispara samplers que ao mesmo tempo encorpam e modificam o que escutamos. A ideia é criar um clima envolvente entre batidas que se repetem e se transformam ao longo das músicas, indo e voltando em sons e temáticas. A vida do imigrante ilegal é um dos temas que ele aborda diversas vezes, como em Desaparecido – a segunda música do álbum:

Me llaman el desaparecido
Cuando llega ya se ha ido
Volando vengo, volando voy
Deprisa deprisa a rumbo perdido.

Cuando me buscan nunca estoy
Cuando me encuentran yo no soy
El que está enfrente porque ya
Me fui corriendo más allá
Me dicen el desaparecido
Fantasma que nunca está
Me dicen el desagradecido
Pero esa no es la verdad
Yo llevo en el cuerpo un dolor
Que no me deja respirar
Llevo en el cuerpo una condena
Que siempre me echa a camina

Me chamam de desaparecido
Que quando chega já se foi
Voando eu venho, voando vou
Depressa, depressa a rumo perdido

Quando me procuram nunca estou
Quando me encontram eu não sou
O que está na frente porque já
Fui correndo mais pra lá
Me chamam de desaparecido
Fantasma que nunca está
Me chamam de desagradecido
Mas essa não é a verdade
Eu levo no corpo uma dor
Que não me deixa respirar
Levo no corpo um castigo
Que sempre me põe pra caminhar

Envolvente, politizado, crítico e divertido, esse é o Clandestino de Manu Chao. Vale prestar atenção ponto de vista que ele apresenta sobre as migrações, o aquecimento global, a política global e muitas outras questões. Para escuta-lo completo no Youtube, é só clicar abaixo:

Álbum completo na conta oficial de Manu Chao no Youtube

E para conhecer mais?

Site, Instagram e Twitter oficial de Manu Chao. Obs: dá para escutar todos os álbuns e canções dele no site!

“Manu Chao, crônica do astro que virou as costas ao sistema” (03 abr. 2020 Carlos Marcos, El País Brasil)

Manu Chao e a música sem fronteiras – (Gazeta do povo, Cristiano Castilho)

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Doze e vinte

A avenida esvaziada sob o sol que divide o céu em duas partes, meio-dia e os olhos acostumados ao alvoroço estranham a quietude. Retinas em direção ao relógio da praça, doze e um e em qualquer outra ocasião elas encarariam uma multidão que se acotovelaria entre camelôs e lojas, os ouvidos imersos na algazarra de chamados e promoções do comércio popular. “Olha a castanha, o milho… Barato é aqui, barato é só hoje… 1 real, apenas 1 real”. Doze e dois e ele lembra que esses são outros tempos, quase ninguém se arrisca a sair de casa sem necessidade. Quase porque lá no bar da esquina estão os mesmos velhos de sempre, seus cigarros e copos americanos cheios até a metade acalentados por um brega antigo. Doze e três e ele acha graça em pensar que mesmo que um dia o mundo acabe eles devem continuar exatamente ali, bebendo e conversando como se nada tivesse acontecido. No entanto, aconteceu, doze e quatro e cadê os amigos, cadê os vendedores para oferecer um bico, cadê as madames e donas de casa e suas ofertas generosas, cadê as pessoas. Estão em casa, ele sabe, e se isso é um grande problema para a economia – como disse ontem a noite o ministro na televisão daquele mesmo bar da esquina – é ainda mais grave para quem não tem casa. Doze e cinco, a fome não consulta o relógio, mas avisa que já é hora.

Ele começa a subir a Avenida Rio Branco, os passos decididos encontram lojas, sebos e clínicas populares fechadas, as lanchonetes também não descerraram as grades, não há nem papelão ou latinhas para juntar às doze e seis. Alguns cruzamentos depois, um casal de mãos dadas vindo na direção contrária, o homem ajusta o relógio no pulso. Doze e sete, ele aperta mais forte a mão da esposa quando se depara com ele, mas seguem sem desviar de rota. É estranho, é estranho, um sentimento lhe vem. Até um dia desses ele era um fantasma pelo qual as pessoas olhavam através, mais ignoravam do que temiam. Agora é um ET que desperta medo e algum nojo, uma espécie de ameaça ambulante. Doze e oito e essas ideias lhe fazem lembrar da Dona Carmelita, e essa memória faz com que ele retorne pelo caminho que vinha e entre na Rua João Pessoa.

“Apesar da situação está tensa senhora, a verdade que desde que isso tudo começou” – os dedos do sargento desenham no ar um círculo abarcando as lojas da avenida vazia – “não tem tanta ocorrência”. Doze e nove e ela, no banco de trás, assente com a cabeça e explica que desde então também não há movimento na loja, e que nem sabe porque o patrão tá mantendo ela aberta. O mostrador digital do rádio marca doze e dez. “Tudo vazio, nessas horas os meliante aproveita”, comenta o policial no volante enquanto faz o carro lentamente contornar uma esquina. “Olha ali sargento, um peça rara”. Doze e onze e o motorista aperta os olhos em direção ao final da rua. A viatura foi chegando devagar, e de repente resolveu parar. Um dos caras saiu de lá de dentro já dizendo: “Compadre perdeu, e se eu tiver que procurar você está fodido”.

Doze e quinze, uma esquina e duas igrejas, de um lado a Catedral Nova e sua arquitetura moderna, do outro o velho cinema convertido em Igreja Internacional. As portas de ambas se abrem todos os dias para a Avenida Deodoro da Fonseca, mas hoje não. O rádio do carro anuncia a hora certa, doze e dezesseis, numa terça-feira com cara de feriado, nem os fiéis católicos e evangélicos de sempre, sequer os transeuntes do centro que a todo momento passam de lá para cá. Só estão por perto os dois últimos voluntários que organizam as caixas de isopor na mala do automóvel. São eles que veem o mendigo retardatário mancar na direção do lugar em que estavam até a pouco entregando cafés da manhã. “Cheguei atrasado?” O homem de máscara que organiza as caixas, olha o relógio de pulso – doze e dezessete – mas espera que a mulher responda ao mendigo. “Chegou, mas vou ver o que tem para você”. Ela habilmente abre sacolas e balança garrafas para verificar se ainda tem algo. Doze e dezoito, o homem observa com mais cuidado o recém-chegado, uma marca de pisada na altura da barriga, um rasgo e uma marca de sangue perto colarinho. Ele afasta a máscara: “Você brigou?” No lugar de uma resposta, uma outra pergunta: “A Dona Carmelita veio?” Os dois se entreolham e a mulher espera um pouco para responder. “Não veio não, ela tá de quarentena em casa, fraquinha daquele jeito é perigoso demais sair”. Doze e dezenove, depois de revirar sacolas e caixas de isopor, ela achou um pão e serviu junto de um copinho plástico de suco de uva de caixa. Ao se aproximar nota as marcas na roupa e corpo dele: “Ei, o que aconteceu? Bateram em você?”. Ele balança a cabeça sem afirmar ou negar, só para afastar o assunto. Ele recebe a comida e se senta para comer pensando na Dona Carmelita, nas suas bênçãos e conselhos, no seu porte frágil e no seu coração imenso.

Os voluntários se despedem e o carro se vai, ele continua sentado no meio-fio da avenida vazia comendo. Doze e vinte e ele imagina que a Dona Carmelita deve ter rezado de algum lugar para a mulher ter gritado com os policiais que não era ele quem tinha pego a bolsa. Ali, sozinho, deseja que a velha senhora esteja bem e a salvo em casa.

Revisão: Maria José/Arthur Duarte (Twitter)
Referência incidental: música “Tribunal de Rua” escrita por Marcelo Yuka e tocada pelo O Rappa (Youtube)

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Famílias e crítica social no cinema – duas dicas

Essas são dicas de filme para quem gostou do crítico e premiado (4 Oscars!) Parasita (2019) do diretor e roteirista Bong Joon-ho. Sua análise a contra pelo das relações sociais e as discussões que levanta do tema família estão presentes em outras importantes obras cinematográficas.

Em Biutiful (com essa grafia mesmo), o ator Javier Bardem fez uma das melhores interpretações da sua carreira, que lhe valeu diversas premiações de melhor ator – incluindo o Cannes. Se trata de uma película de 2010, escrita, dirigida e produzida por um dos mestres mexicanos da sétima arte: Alejandro González Iñárritu.

Biutiful é realmente como o título sugere: belo de um modo diverso. É cinema para se emocionar e ao mesmo tempo pensar seu papel no mundo e as relações sociais e políticas que envolvem todo o globo. Isso tudo partir do microcosmo da vida de Uxbal. Como explicou o jornal Público:

A odisseia de Uxbal (Javier Bardem), um pai solteiro entre conflitos, que se perde e encontra pelos labirintos do submundo de Barcelona, e que, acima de tudo, tudo fará para salvar os seus filhos e reconciliar-se com um amor perdido enquanto a sua morte parece cada vez mais próxima. Amor e espiritualidade, crime e culpa, conjugam-se para levar Uxbal, com negócios escuros na exploração de imigrantes ilegais e uma suposta capacidade de comunicar com os mortos, até ao seu destino de herói trágico

A vida do personagem é mesmo um universo caótico e seu caminho tortuoso é uma verdadeira saga. Vale muito a pena assistir!

Assunto em Família (2018), filme japonês escrito e dirigido por Hirokazu Koreeda, conta a trajetória de uma família que vive de subempregos e de pequenos furtos – avó, pai, mãe, filho e filha – e que adota informalmente um novo membro. Segundo a sinopse do Cinemark:

Depois de uma de suas sessões de furtos, Osamu (Lily Franky) e seu filho se deparam com uma garotinha. A princípio eles relutam em abrigar a menina, mas a esposa de Osamu concorda em cuidar dela depois de saber das dificuldades que enfrenta. Embora a família seja pobre e mal ganhem dinheiro dos pequenos crimes que cometem, eles parecem viver felizes juntos até que um incidente revela segredos escondidos, testando os laços que os unem.

O filme venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2018 ao narrar essa história com sensibilidade e profunda crítica social. É uma película para pensar sobre o que é efetivamente uma família e passear por uma Tóquio muito distante do imaginário de poderosos centros comerciais e lojas brilhantes. Um prato cheio para quem gostou das discussões presentes em Parasita (2019) e que está disponível na Netflix.

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Natal

O vermelho para os carros e o verde coloca os pedestres em movimento, eles atravessam a rua em direção ao shopping de mãos dadas. Na calçada se misturam às pessoas que esperam no ponto de ônibus, aos ambulantes que anunciam seus produtos e aos que como eles apenas passam, há mais gente do que o habitual. Na televisão o comentarista do jornal disse que é porque há mais dinheiro no mercado, informação traduzida pela apresentadora do programa de variedades da seguinte forma: está chegando o Natal e você precisa correr atrás dos presentes da família. A porta automática praticamente não fecha com a quantidade de pernas que adentram o piso cinza claro e o ar refrigerado, eles seguem emaranhados na multidão pelos corredores enfeitados. Só mais uma curva para chegar ao pátio central do shopping onde se concentra a decoração de Natal com direito a árvore gigante e Papai Noel em pessoa. Há alguns passos da curva o homem sente uma mão segurando seu braço. “O senhor tem que se retirar”. O homem aponta a criança e diz ao segurança: “Vim só levar ele pra ver o Papai No…”. “O senhor tem que se retirar”. Já há uma mão no seu outro braço e um terceiro homem de terno pegando seu filho pela mão. Ele sabe que não há como argumentar com essas pessoas, o jeito é mesmo deixar serem levados até a saída.

Ficava numa rua cheia de lojas, uma das paredes colada à do banco, no vai e vem de correntistas, compradores e outros transeuntes. Por quase três meses aquelas duas vitrines de cara para a grande avenida estiveram fechadas, mas não com olhos de quem dorme. No interior do ambiente durante todo o dia estavam pessoas a reformar e a trazer os novos objetos. Os olhos fechados escondiam esses homens que correram por agosto e setembro. Seu esforço para abrir as grandes pálpebras foi justificado, as portas foram descerradas a tempo das vendas de Natal. O pai segue na avenida, o filho ficou com a mãe em outro ponto da cidade. Ele vai semi-invisível pela calçada, desviando das pessoas e olhando para o meio fio em busca do sustento. Não basta ser lata, tem de ser de alumínio. Entre o abaixar e o por no saco de estopa, seus olhos percorreram as vitrines e ali se perderam um instante. Uma nova loja acaba de abrir já com toda sua decoração de Natal pronta, um Papai Noel imenso sobre um trenó se destaca na vitrine. Junto de cada produto anunciado há um Papai Noel menor seguindo o modelo do gigante com barbas de nuvem que guia as renas como se tivesse saindo do banco vizinho para espalhar o dinheiro pelas lojas. O homem se emocionou, ali estava à oportunidade de o filho ver o enfim um Papai Noel grande e bonito, não haveriam seguranças para expulsá-los.  

Papai Noel em Centro Comercial.

O dia já se deitou e a noite seguirá de pé até que os pássaros e os rádios anunciem a nova manhã deste lado do mundo. Antes que isso ocorra o pai e seu filho caminham pelas avenidas e ruas antes cheias, mas agora de carros e passos raros. Eles já passaram por algumas lojas, mas nenhuma com um Papai Noel que se aproxime daquela para qual eles estão indo. Ele não disse ao filho onde exatamente era para não tirar a surpresa do garoto. Do começo da avenida já dá para ver a luz amarela que atravessa as vitrines e ilumina a calçada. Passo a passo eles vão olhando a decoração das lojas, mais meio quarteirão e eles chegarão no imenso Papai Noel no trenó. Pessoas saem correndo do banco ao lado da vitrine iluminada em direção a um carro parado mais a frente da rua e repentinamente um estrondo. O chão treme e o último homem que ainda não entrara se escondeu atrás do veículo para se defender dos destroços atirados para o outro lado da rua. Parece que os encapuzados se espantaram com o tamanho explosão, logo saíram em disparada. O pai não sabia o que fazer, as vitrines da loja explodiram junto com a faixada do banco. É a segunda vez que algo atrapalhava seu filho de ver o Papai Noel. Ele esconde o menino em uma entrada de loja mais recuada que as restantes e corre para ver se por um milagre o Papai Noel e o trenó estavam de pé. Contrariando a esperança não sobrou quase nada do trenó, das renas e do velhinho gigante, mas ele vê algo que chama sua atenção do outro lado da rua. Por baixo de vidros e escombros em frente ao banco foi parar um dos Papais Noel pequenos que enfeitavam a loja. Admirou por um segundo a roupa um tanto suja e a barba acinzentada pela poeira, quando foi retira-lo dos destroços percebeu alguma coisa no chão que estava por baixo dele. Não é possível, pensou, duas notas de cem, uma com a ponta chamuscada e outra perfeita. Ele até poderia sair procurando por outras, mas sabe que ali não é lugar para estar quando em breve chegassem as viaturas. O menino vai com o bom velhinho nas mãos e o pai leva os dois nos braços enquanto corre. Talvez nenhum outro, mas aquele Natal estava garantido.

Revisão: Arthur Duarte (Twitter)

Crônica retirada do livro “Natal e outras crônicas” publicado pela EDUFRN.

Disponível para download AQUI