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Ouvidos para ler o mundo

Se um único post ou livro ou filme ou disco tivesse que unir muito do que vivemos, debatemos, sonhamos e sentimos neste início de século XXI, sobre o que falaria? Epidemias, migração, amor, falta de comunicação, cidades gigantes, guerras, internet, drogas, fronteiras naturais e artificiais, poluição? Seriam muitos e muitos temas. E qual seria a língua utilizada? O onipresente inglês? O francês? A língua espanholas ou a portuguesa? E se falasse todas elas ao mesmo tempo, juntando rock, reggae, ska, punk e salsa? Surpreendentemente há um disco que reúne tudo isso, e que já tem pouco mais de vinte anos de vida.

Capa do álbum.

Clandestino (1998) é o primeiro álbum solo de Manu Chao, músico francês, filho de espanhóis e cidadão do mundo. Ele é essencialmente um ativista. Como bem disse uma matéria de jornal:

Manu Chao não tem gravadora; não faz turnês como as dos artistas de sua categoria; tem ofertas para tocar nos melhores festivais do mundo, mas não quer; não se interessa por entrevistas; não lança discos; não aparece para receber prêmios; não usa celular…
Tudo isso não o impede de estar fazendo coisas o tempo todo. Você pode encontrá-lo atuando num bar de bairro, sem avisar, ou camuflado com outro nome. Ou escutar suas novas canções em seu site

Carlos Marcos, jornalista do El País (clique para abrir a matéria)

Assim como Manu Chao, o álbum de dezesseis músicas atravessa ritmos músicais e países, recortando e colando trechos de discursos e canções de vários estilos sem abrir mão do seu violãozinho e de uma pegada de crítica social. Nas músicas há trechos de manifestos do Exército de Libertação Nacional tratando de justiça social, da Rádio França Internacional discutindo o avanço da poluição, a narração de um gol do Flamengo, pedaços de telenovela mexicana e citações de canções de todo tipo de artista (incluindo os Rolling Stones).

Clipe oficial da primeira música do álbum.

A sonoridade em geral, é a de uma roda de violão com batida reggae que produz um mantra no qual Manu Chao declama e canta palavras simples, mas muito bem afiadas sobre o mundo que nos cerca. Isso tudo com a ajuda de percussão, baixo e um Dj que dispara samplers que ao mesmo tempo encorpam e modificam o que escutamos. A ideia é criar um clima envolvente entre batidas que se repetem e se transformam ao longo das músicas, indo e voltando em sons e temáticas. A vida do imigrante ilegal é um dos temas que ele aborda diversas vezes, como em Desaparecido – a segunda música do álbum:

Me llaman el desaparecido
Cuando llega ya se ha ido
Volando vengo, volando voy
Deprisa deprisa a rumbo perdido.

Cuando me buscan nunca estoy
Cuando me encuentran yo no soy
El que está enfrente porque ya
Me fui corriendo más allá
Me dicen el desaparecido
Fantasma que nunca está
Me dicen el desagradecido
Pero esa no es la verdad
Yo llevo en el cuerpo un dolor
Que no me deja respirar
Llevo en el cuerpo una condena
Que siempre me echa a camina

Me chamam de desaparecido
Que quando chega já se foi
Voando eu venho, voando vou
Depressa, depressa a rumo perdido

Quando me procuram nunca estou
Quando me encontram eu não sou
O que está na frente porque já
Fui correndo mais pra lá
Me chamam de desaparecido
Fantasma que nunca está
Me chamam de desagradecido
Mas essa não é a verdade
Eu levo no corpo uma dor
Que não me deixa respirar
Levo no corpo um castigo
Que sempre me põe pra caminhar

Envolvente, politizado, crítico e divertido, esse é o Clandestino de Manu Chao. Vale prestar atenção ponto de vista que ele apresenta sobre as migrações, o aquecimento global, a política global e muitas outras questões. Para escuta-lo completo no Youtube, é só clicar abaixo:

Álbum completo na conta oficial de Manu Chao no Youtube

E para conhecer mais?

Site, Instagram e Twitter oficial de Manu Chao. Obs: dá para escutar todos os álbuns e canções dele no site!

“Manu Chao, crônica do astro que virou as costas ao sistema” (03 abr. 2020 Carlos Marcos, El País Brasil)

Manu Chao e a música sem fronteiras – (Gazeta do povo, Cristiano Castilho)