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Curso “Ensinando com a Web”

Um professor ou um aluno pode-se perguntar: como usar a internet e os outros recursos digitais em sala de aula? Como melhorar o ensino e a aprendizagem?

Esses dias descobri um curso online gratuito (e com certificado!) de 15h promovido pela Fundação Bradesco. Ele tem 4 módulos (o primeiro é apenas uma abertura) que podem ser realizados ao longo de um mês:

  • Módulo 0 – Ensinando com a Web
  • Módulo 1 – Ser professor na sociedade da informação e do conhecimento
  • Módulo 2 – A Web hoje: conceitos, ferramentas e recursos
  • Módulo 3 – Ética e segurança na Web
  • Módulo 4 – Casos de sucesso e autonomia intelectual

Gostei dele porque apresenta usos para educação de vários níveis (da básica ao ensino superior), explicando os principais conceitos e com bastante exemplos práticos e ideias para usa em sala de aula.

É muito válido para quem busca saber mais sobre o tema e quer um curso com certificação (no fim há uma atividade avaliativa de 10 questões com conteúdos do curso)

Se interessou? Acessa ele no link abaixo:

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Começar o ano letivo a todo vapor (e online!)

A lista de presença e atividades online, blog de avisos e materiais didáticos estão para começar o ano letivo de 2020 a pleno vapor

As turmas de 7°, 8° e 9° da E.M. Ivanira Paisinho descansem bem que já já estaremos estudando Historia nos livros, imagens, filmes, sites, etc.

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Contos e Crônicas

Por quê?

O que eu gosto nas crianças é que elas têm a imaginação e audácia de fazer perguntas que os adultos por discrição ou desinteresse não fazem. Um dia de aula qualquer, uma aluna de uns 10 anos de idade me viu organizando meus shorts, camisa e tênis de corrida na bolsa. Sem delongas questionou: — Professor, por quê? Apontou para as coisas na mochila. Eu me virei: — Por que o quê? E ela: Por que o senhor corre tanto?

Os fotógrafos, pelo menos todos que conheci, falam em uma hora mágica. Um curto período de tempo em que o Sol vai se pondo e a noite ainda chegando, um momento em que a luz natural permite fazer fotos incríveis em espaço aberto sem necessidade de flash ou correções de luminosidade no computador. Se não acredita, faça o teste. No entanto, para mim que pouco entendo de máquinas fotográficas e sequer sei sorrir direito nas fotografias, essa não é a hora mágica.

A luz verde do relógio de pulso permite ver o horário, são 4 horas e 29 minutos. Em um minuto o despertador vai tocar. Nesse curto período de tempo posso pensar nos passos a seguir: levantar, fazer café o preto e torrada, comer e escovar os dentes, pôr o calção e camisa, calçar os tênis e sair. A luz do Sol toca o chão bem antes dele se levantar no horizonte, uma constatação que me surpreende todas as vezes que acordo cedo para correr. Outra verdade é que a noite não se despede fácil, quando os pássaros começam a cantar, ela ainda se faz presente. Como? Não sei. Certo é que em um curto espaço de tempo é simultaneamente escuridão e luz, os postes seguem acesos sob os raios solares e ninguém sabe quem escreve as palavras matinais na página da noite. Nesse momento eu estou correndo por uma avenida que segue em direção à praia. Dividem as paradas os notívagos que já abandonaram a última garrafa e esperam os primeiros ônibus para irem para casa, os mesmos que levarão aqueles que acordaram de madrugada para irem ao trabalho. Nas calçadas, as senhoras voluntárias que alimentam gatos de rua dividem espaço com os mendigos e seus papelões. Os vigias dos postos de gasolina jogam conversa fora e tomam café enquanto trocam de guarda. Essa é para mim a hora mágica e hoje, meu aniversário de 31 anos, eu não podia fazer outra coisa senão acordar cedo e ir correr, encontrar esse momento em que o fantástico habita o mundo. Poucos anos atrás, foi nessa hora mágica em que presenciei uma aparição, ali mesmo no calçadão de pedras portuguesas em que percorro os poucos quilômetros da avenida que desemboca no mar. Não era Deus, nem Jesus ou algum santo, sequer um fantasma do passado ou qualquer coisa que pudesse ter escapado de um sonho bom ou ruim.

Quando faltava pouco tempo para eu fazer 26 anos foi à época em que eu mais tinha me esforçado na vida até então. De uma tacada só eu estudava e escrevia para terminar o mestrado, realizava os processos seletivos de doutorado e participava de um concurso que poderia me catapultar de um estudante dedicado de Ciências Humanas a um excelente emprego para o resto da vida. Bem, por meses meus dias praticamente se resumiam numa mesa repleta de livros e papéis e que tinha um computador no meio, o mesmo no qual escrevo este texto. Digo praticamente porque eu contava com alguns amigos e um relacionamento de anos. Na época eu achava esse esforço cansativo, mas também inquietante, acreditava que aquilo tudo era um grande desafio que me levaria além. Que além era esse? Hoje eu não sei, mas era um além desses de nuvens douradas e céu de brigadeiro que tem em alguns filmes, nos quais uma voz vinda de não sei onde – para não dizer novamente do além – atesta que será uma felicidade eterna. Claro, pelos olhos do presente isso é muito raso e tolo, como diz Raul: “uma grande piada e um tanto quanto perigosa”.

Para juntar a sabedoria do maluco beleza com a de Gilberto Gil, o sonho acabou, e ainda por cima terminou cedo. Antes de conseguir sair da casa dos 25 anos, a mulher tinha me deixado e o concurso também, pois fiquei de fora por caprichosos décimos e como prêmio de consolação eu terminei bem o mestrado e fui aprovado para estudar no Rio de Janeiro. Minha sensação à época, é que alguém tinha puxado meu tapete e que eu estava no ar caindo em câmera lenta, mas, estranhamente não chegava ao chão. Uma queda vagarosa e sem fim que consome os dias e noites, e lhe presenteia com lágrimas e tristeza, é claro. Além disso, notei uma mudança que me pareceu suspeita. Quando recebi as duas notícias eu estava no meu quarto, pertinho da mesa de estudo a meio caminho da janela que garantia a vista do bairro e a brisa do apartamento 804. Eu sempre gostei de ver paisagens, olhar o nascer e pôr do sol, prestar atenção nos detalhes das casas, dos morros e nuvens. Só que a partir de então eu não conseguia mais, se eu olhasse da minha janela, da varanda, ou qualquer outro lugar alto, eu não conseguia encarar mais o horizonte. Meus olhos se concentravam no chão logo abaixo de mim, como um vórtice que sugasse meu corpo e meu olhar com uma forte intensidade. Se fechasse os olhos podia ver o que Belchior descreveu com precisão: “meu corpo que cai do oitavo andar”.

Por um tempo me afastei das janelas, mas felizmente isso pertence ao passado, hoje eu continuo admirando as paisagens e o céu sempre que posso. Na época, guardei no bolso minha carta de aceite numa universidade de prestígio, fiz as malas e meti o pé no mundo. Fui estudar, cozinhar, ler, trabalhar, andar por caminhos que nunca tinha feito e viver coisas novas que radicalmente me mudaram. Quem sabe um dia escrevo sobre isso também, hoje trato de hábitos antigos. Uma das coisas que retomei foi andar, fui uma criança e adolescente que andou e correu muito, por todos os dias e motivos possíveis. Nesse retorno, primeiro andei por todas as ruas do centro do Rio e de Niterói – onde passei a morar – e depois por todas da Zona Sul de Natal, para onde voltei um ano depois. Conhecendo e revendo cada detalhe, cada pessoa, esquina, banca de jornal, cachorro ou prédio que encontrasse, e escrevendo sobre eles – anedotas, contos, crônicas, etc. Depois fazendo esses trajetos correndo, pequenos trechos nas caminhadas que foram crescendo alguns metros a cada vez, até o dia em que comecei a fazê-los inteiros sem parar.

Numa dessas corridas, faz alguns anos, eu sai bem cedo de casa – acordei antes do amanhecer – e parti em direção ao mar com o objetivo de chegar à praia e ter aquela vista do sol nascendo das águas por entre as nuvens. Mais ou menos à meio do caminho, começo a escutar passadas ritmadas vindo lá detrás, alguém correndo com alguma aceleração em relação ao meu ritmo. Passo a passo a pessoa foi se aproximando e emparelhou comigo pouco depois, me espantei. Usava óculos e seu olhar estava no horizonte, tão concentrado que parecia que nem tinha percebido minha existência. As passadas eram fortes, mas a cadência era levemente desconexa, o pé direito torto para fora como um relógio que marca duas em ponto. No resto, shorts, camisa normais de um corredor qualquer. O que me deixou perplexo com essa figura não era a vestimenta, é que não se tratava de outra pessoa, era eu mesmo correndo ao meu lado. Por um tempo, esse outro eu manteve o mesmo ritmo que eu estava fazendo, ai olhou para mim e acenou com a cabeça sem dizer uma palavra – respondi do mesmo modo – depois acelerou para vencer os quilômetros que faltavam para chegar à praia. Não persegui seus passos, nem sequer fui procurá-lo no final, onde a avenida faz uma curva e encontra o mar, porque sabia que era inútil e desnecessário. Eu entendi bem o aceno que ele me deu naquela hora mágica. Em um simples gesto ele me falou que o passado estava agora no seu devido lugar, que eu vivia outro tempo e que se quisesse mesmo ir além – muito além do que eu sonhara com 25 anos –, era necessário acelerar esses novos passos.

Mesmo 2500 quilômetros e quatro pares de tênis depois, quando a menina me fez a pergunta sobre o sentido de correr, eu fui pego de surpresa. Poderia ter dado uma resposta genérica: para emagrecer, ficar mais saudável, dormir melhor, ter mais disposição, etc. mas, nenhuma delas era verdade. Explicar a hora mágica, uma depressão ou que me vi uma vez como uma aparição era descabido para uma criança de 10 anos que pedia uma resposta imediata. Então eu levantei os braços, como quem diz: — Quem sabe? Ela respondeu: — Professor, você é meio doido. O que tomei como um elogio, porque ela também considera “meio doido” muito do que admira, desde as músicas e pulseiras feitas à mão que gosta até os penteados afro que tanto que queria usar. Bem ela tem razão, é mesmo “meio doido” tudo isso.

Revisão: Maria José/Arthur Duarte (Twitter)

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Contos e Crônicas

Natal

O vermelho para os carros e o verde coloca os pedestres em movimento, eles atravessam a rua em direção ao shopping de mãos dadas. Na calçada se misturam às pessoas que esperam no ponto de ônibus, aos ambulantes que anunciam seus produtos e aos que como eles apenas passam, há mais gente do que o habitual. Na televisão o comentarista do jornal disse que é porque há mais dinheiro no mercado, informação traduzida pela apresentadora do programa de variedades da seguinte forma: está chegando o Natal e você precisa correr atrás dos presentes da família. A porta automática praticamente não fecha com a quantidade de pernas que adentram o piso cinza claro e o ar refrigerado, eles seguem emaranhados na multidão pelos corredores enfeitados. Só mais uma curva para chegar ao pátio central do shopping onde se concentra a decoração de Natal com direito a árvore gigante e Papai Noel em pessoa. Há alguns passos da curva o homem sente uma mão segurando seu braço. “O senhor tem que se retirar”. O homem aponta a criança e diz ao segurança: “Vim só levar ele pra ver o Papai No…”. “O senhor tem que se retirar”. Já há uma mão no seu outro braço e um terceiro homem de terno pegando seu filho pela mão. Ele sabe que não há como argumentar com essas pessoas, o jeito é mesmo deixar serem levados até a saída.

Ficava numa rua cheia de lojas, uma das paredes colada à do banco, no vai e vem de correntistas, compradores e outros transeuntes. Por quase três meses aquelas duas vitrines de cara para a grande avenida estiveram fechadas, mas não com olhos de quem dorme. No interior do ambiente durante todo o dia estavam pessoas a reformar e a trazer os novos objetos. Os olhos fechados escondiam esses homens que correram por agosto e setembro. Seu esforço para abrir as grandes pálpebras foi justificado, as portas foram descerradas a tempo das vendas de Natal. O pai segue na avenida, o filho ficou com a mãe em outro ponto da cidade. Ele vai semi-invisível pela calçada, desviando das pessoas e olhando para o meio fio em busca do sustento. Não basta ser lata, tem de ser de alumínio. Entre o abaixar e o por no saco de estopa, seus olhos percorreram as vitrines e ali se perderam um instante. Uma nova loja acaba de abrir já com toda sua decoração de Natal pronta, um Papai Noel imenso sobre um trenó se destaca na vitrine. Junto de cada produto anunciado há um Papai Noel menor seguindo o modelo do gigante com barbas de nuvem que guia as renas como se tivesse saindo do banco vizinho para espalhar o dinheiro pelas lojas. O homem se emocionou, ali estava à oportunidade de o filho ver o enfim um Papai Noel grande e bonito, não haveriam seguranças para expulsá-los.  

Papai Noel em Centro Comercial.

O dia já se deitou e a noite seguirá de pé até que os pássaros e os rádios anunciem a nova manhã deste lado do mundo. Antes que isso ocorra o pai e seu filho caminham pelas avenidas e ruas antes cheias, mas agora de carros e passos raros. Eles já passaram por algumas lojas, mas nenhuma com um Papai Noel que se aproxime daquela para qual eles estão indo. Ele não disse ao filho onde exatamente era para não tirar a surpresa do garoto. Do começo da avenida já dá para ver a luz amarela que atravessa as vitrines e ilumina a calçada. Passo a passo eles vão olhando a decoração das lojas, mais meio quarteirão e eles chegarão no imenso Papai Noel no trenó. Pessoas saem correndo do banco ao lado da vitrine iluminada em direção a um carro parado mais a frente da rua e repentinamente um estrondo. O chão treme e o último homem que ainda não entrara se escondeu atrás do veículo para se defender dos destroços atirados para o outro lado da rua. Parece que os encapuzados se espantaram com o tamanho explosão, logo saíram em disparada. O pai não sabia o que fazer, as vitrines da loja explodiram junto com a faixada do banco. É a segunda vez que algo atrapalhava seu filho de ver o Papai Noel. Ele esconde o menino em uma entrada de loja mais recuada que as restantes e corre para ver se por um milagre o Papai Noel e o trenó estavam de pé. Contrariando a esperança não sobrou quase nada do trenó, das renas e do velhinho gigante, mas ele vê algo que chama sua atenção do outro lado da rua. Por baixo de vidros e escombros em frente ao banco foi parar um dos Papais Noel pequenos que enfeitavam a loja. Admirou por um segundo a roupa um tanto suja e a barba acinzentada pela poeira, quando foi retira-lo dos destroços percebeu alguma coisa no chão que estava por baixo dele. Não é possível, pensou, duas notas de cem, uma com a ponta chamuscada e outra perfeita. Ele até poderia sair procurando por outras, mas sabe que ali não é lugar para estar quando em breve chegassem as viaturas. O menino vai com o bom velhinho nas mãos e o pai leva os dois nos braços enquanto corre. Talvez nenhum outro, mas aquele Natal estava garantido.

Revisão: Arthur Duarte (Twitter)

Crônica retirada do livro “Natal e outras crônicas” publicado pela EDUFRN.

Disponível para download AQUI 

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Luna

E ali estava ela, acima das nuvens e do céu
O véu, sobre o sobrado amarelo desgastado
Assombrado, por ser o avô de tantas primaveras
Bela, pairava como o fruto crescente do ramo desfolhado
A lua, filha e mãe dos homens, prédios e galhos
.

Fotografia: João Gilberto. Lua sobre o Hotel Globo em João Pessoa (2019) – Acervo do meu Instagram.

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Natal e outras crônicas: o livro

Em 2017 foi publicada a coletânea de crônicas selecionadas pelos jurados do II Concurso Literário América de Oliveira Costa (2015). Inscrevi três textos nesse concurso literário da Editora da UFRN e tive a honra de todos eles fazerem parte do livro lançado pela editora dois anos depois. Um deles – de título “Natal” – dá nome ao volume e ainda não foi publicado no blog. Também fazem parte do livro minhas crônicas “O fim” e “No rio escuro”, Se ainda não conhece elas e quer entender porque elas foram premiadas no concurso literário, é só procurar por elas aqui no site. Quer conhecer a crônica ainda inédita por aqui ou os excelentes textos de outros autores selecionados pelos jurados para a publicação? É só clicar no link abaixo e fazer o download do e-book disponibilizado pela editora.

–> LINK PARA BAIXAR O LIVRO NATAL E OUTRAS CRÔNICAS <–

https://repositorio.ufrn.br/jspui/bitstream/123456789/21995/1/Natal%20e%20outras%20cr%c3%b4nicas.pdf

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Cadeiras e sonhos

Há um mistério nas cadeiras de balanço, pois ninguém sabe responder por que seu ir e vir sem sair do canto maravilha tanto os velhos e as crianças. Não deve existir outro objeto tão útil à humanidade, mas não sei de alguém quem tenha se preocupado em saber como se fazem as cadeiras. Na verdade, pensando bem, conheço uma única pessoa, meu avô, este moço que se balança ansiosamente na varanda da casa de sua irmã. Quando o vim conhecer, já era um sexagenário de calças cinza de vinco marcado no brim, os seus olhos azuis abaixo de uma boina italiana.

No entanto, está história é muito anterior a mim, é do tempo em que os jovens ainda andavam por aí de calça e camisa de manga longa, do tempo em que tanques de guerra e metralhadoras rugiam na Europa, do tempo e em que soldados brasileiros se despediam dentro dos navios para nunca mais voltar. Meu avô paterno foi militar, sofreu em camas de campanha e leitos de hospital, depois teve três mulheres e viveu muito, muito mesmo. Só que essa história é sobre meu outro avô, o que nos tempos da guerra vivia no interior de Pernambuco, sua paz era corroída apenas pela falta de dinheiro. Já o conheci tiradentes – dentista de feira com ponto perto do mercado –, mas ele só aprenderia esse ofício depois, naquela época era marceneiro. As tábuas e móveis consumiam seus dias, as dívidas e sonhos varriam suas noites.

Certo domingo, o cinema instalado na praça principal animava a pequena cidade com as cenas de Tarzan, um velho sucesso de Holywood. Na segunda-feira, não foram poucos os que jogaram no bicho os números dos animais que estavam sendo projetados na tela, nos fundos da igreja, na noite anterior: macaco, elefante, jacaré, leão. Até no número 22 – o tigre – subiu nas apostas, mesmo ele não aparecendo na película. Todos perderam seu dinheiro, incluindo meu avô, uma vez que o animal sorteado foi o cachorro. Ele ficou decepcionado com o resultado e ainda mais consigo mesmo, pois na madrugada havia sonhado que uma de suas irmãs mais velhas havia ganhado dois cachorros pequenos, um da cor de leite, outro rajado como uma rapadura. No entanto, só lembrou-se disso depois de saber o resultado da banca na segunda-feira.

Os cruzeiros da aposta e a chance de ganhar estavam perdidos, o jeito foi se dedicar ao trabalho, pois não se faz um bom jogo de mesa e cadeiras sem a madeira certa e para achá-la é necessário se embrenhar nas matas, gastar as sandálias nas trilhas de pedra e poeira, ter olhos atentos para achar o tipo de árvore correto no meio de tantos outros. Uma vez encontrada a árvore, é necessário que ela seja grande e velha o suficiente para ter um interior bem seco, se for alta e mais ou menos reta, melhor ainda. A lâmina do machado tem de ser afiada e os braços fortes para derrubar o tronco principal, já manejar o serrote requer mais jeito do que força. Nos anos 1940, ter um automóvel era inimaginável, por isso quem levou as toras para a marcenaria foi o carro de boi. Meu avô gastou dias e dias procurando as madeiras nas terras de parentes, cortando e arrastando troncos, transformando-os em tábuas com as serras e a plaina. Quem o vira, dizia que trabalhava como nunca para enfim juntar todo o dinheiro que precisava para sanar suas dívidas.

São seis dias para o trabalho e um para o descanso, diz a bíblia que o padre converte aos fiéis em latim no final de tarde do domingo. É mais uma vez noite de cinema depois da missa, dessa vez um bangue-bangue diverte o público. No fim, aplausos antes do gerador a óleo da cidade ser desligado, depois as pessoas caminhando na penumbra da lua nova para casa. Meu avô pensou que muitas pessoas jogariam no cavalo, no porco, na vaca e no galo que faziam parte do cenário entre resgates de mocinhas e tiros e facadas entre índios e cowboys, mas dessa vez ele não deu atenção às sugestões do faroeste para o jogo do bicho. Havia trabalhado muito para conseguir uma grande quantidade de madeira e convertê-la em um bom montante de cruzeiros. Tudo que ele queria era dormir o sono dos justos. Só que os sonhos não batem a porta, chegam e se vão sem pedir licença para entrar ou sair.

Meu avô acordou exasperado, questionava-se como é que um sonho vinha lhe tentar, logo quando trabalhou tanto para juntar dinheiro. Sem delongas, conversou com um irmão, que morava na mesma casa, sobre o que lhe tinha acontecido semanas antes e o que havia se passado em sua mente na madrugada anterior. Ele estava no topo de uma torre de pedra muito alta, sentado numa das cadeiras feitas da madeira que havia cortado. O cheiro de tinta ainda rescindia no móvel, de modo que teve que conferir se sua calça havia sido manchada. O alívio da roupa intacta durou pouco, um barulho intenso vinha do interior da torre, teve de abrir o alçapão aos seus pés para conferir o que acontecia. Com o vento forte, não dava para distinguir o que diziam os gritos agudos, só os passos da multidão subia os muitos lances de escada. A cada andar, as pessoas foram se tornando mais nítidas, eram os índios e cowboys do filme. Só que, dessa vez, não estavam guerreando entre si, subiam a toda velocidade juntos. Uma certeza formou-se no coração do meu avô, essa tropa subia a todo pique com o objetivo de pegá-lo. Os sonhos não nos dão tempo para os comos e os porquês, tudo que sabia era que tinha de fugir, seja como for, escapar. Pensou em travar o alçapão com as cadeiras e a mesa, mas não adiantaria, vinham muitos atrás dele.

Então, não lhe restava alternativa, ou enfrentar a turba ou se jogar lá de cima. A vista de lá era ao mesmo tempo bela e triste, o sol se punha em um deserto a perder de vista, do outro lado, quase no horizonte, uma praia distante. Ele permaneceu imóvel, indeciso sobre o que fazer enquanto os sons dos passos e dos gritos se tornavam cada vez mais altos. Quando sentiu a primeira batida no alçapão, tomou sua decisão, pegou a cadeira na qual estava sentado e em um movimento indefinido entre o medo e a coragem, atirou-se em direção a areia. Fechou os olhos e sentiu o vento forte enquanto o corpo e o móvel aceleravam em direção ao solo, segundos intermináveis até o baque na areia quente, quando ele ocorreu, teve um susto e abriu os olhos. Acordou de supetão pouco antes do amanhecer em seu colchão de palha habitual, o corpo todo suado. O seu irmão escutou a história com atenção, atento a cada detalhe que meu avô lhe dizia. Para ele, estava claro que aquele sonho estava muito longe do normal, e que esse era sim mais um sinal claro para que meu avô dessa vez não desperdiçasse sua chance e jogasse no número 8, o camelo.

Meu avô teve coragem de se decidir sobre a aposta ainda naquela manhã, mas não de ir saber o resultado do jogo do bicho na praça central da cidade. Ficou na casa de uma irmã o dia todo, esteve em um ir e vir frenético da cadeira de balanço no alpendre. Não almoçou, apenas atendeu aos seus vícios – o cigarro e o café preto – enquanto se balançava freneticamente. No meio da tarde, seu irmão abriu a o ferrolho da portinhola de madeira, o rosto sério. Comunicou que o camelo não havia saído, o número sorteado havia sido o 3. Meu avô comentou que ele podia ficar sossegado, pois não havia gasto todo seu dinheiro no camelo. Na verdade, havia apostado tudo que tinha no burro, porque só um burro pularia de uma torre tão alta com uma cadeira nas mãos. A aposta dele foi a única da região no animal certo, ele quebrou a banca e mudou de vida. Apesar de saber como fazer, nunca mais construiu uma cadeira em toda sua vida.

Revisão: Maria José/Arthur Duarte (Twitter)

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Perfume da Memória

A relação entre o ser humano e os cheiros não é simples. Muitos amam abrir um livro novo para exalar as páginas recém impressas, outros tem crise de espirros só por entrarem em uma sala que tenha jornais. A conexão entre pessoas e perfumes parece ainda mais intrincada. Não é necessário trabalhar em uma perfumaria para saber que uma mesma água-de-colônia agrada profundamente certos clientes e nauseia tantos outros. Varia de pessoa para pessoa, é um dito já gasto de tanto uso e verdade, só que o caso é ainda mais complexo.

Não deve fazer mais que um par de anos que eu ganhei um perfume novo. O motivo não foi aniversário ou alguma outra data comemorativa, mas sim porque algo substancial mudou no olfato da minha namorada. Ela gostava bastante do perfume que eu usava, até que de um dia para o outro passou a ter completa aversão àquela fragrância. Era de um jeito que tinha dor de cabeça e enjoo ao senti-la. Alguém dado ao sentido oculto das coisas, poderia ver ai um mal presságio divino. No entanto, não foi essa a nossa intuição como espíritos práticos. Ela doou meu perfume antigo e me comprou um novo.

Apesar de ter gostado da nova fragrância, eu terminei colocando o seu vidro arrojado no banco de reservas do meu banheiro – uma portinha no armário da pia em que ficam desodorantes, remédios, creme de barbear, saboneteiras e outros produtos para serem usados depois. Na vaga de titular, uma calejada água de cheiro, seu frasco plástico com trava deslizante foi um ótimo companheiro em viagens por ar, mar e terra nos últimos anos. Hoje nem sei porque exatamente fiz isso, mas foi uma escolha que não agradou minha parceira – ela preferia eu utilizando o perfume novo, ou, quem sabe, os dois –, mas, pelo menos não era o intragável aroma antigo.

O uso diário levou ao fim os 100ml de minha colônia de viagens. Chegou o dia de retirar o meu presente das coisas guardadas e promovê-lo ao time principal. Abri a tampa e disparei o spray, o aroma que eu já conhecia no ar. No entanto, junto dele algo que eu não tinha percebido da primeira vez. Uma característica ao mesmo tempo marcante e indefinível, algo que por não saber uma nome melhor, chamei de perfume da memória. Esse cheiro me trouxe lembranças embaçadas, fragmentos de nuvens atravessadas pela turbina de um avião. Um homem muito alto, de voz calma e educada, não consigo ver seu rosto. Minha mão sem firmeza segurando um lápis de cor, tentando pintar – sem ter muito manejo – um desenho em um papel. O que essas imagens significam? Quem é esse homem? Meu primeiro pensamento foi que seria um amigo de muita altura e educação. As pessoas as vezes pediam para ele repetir o que tinha dito porque ele fala com suavidade. Ele é bem alto – quando perguntei me respondeu que tem 1,87 – mas, na memória repentina do perfume eu tinha visto alguém maior, um gigante. Pensando bem, na visão em que eu segurava o lápis, a minha mão eram bem menor do que hoje. Indícios que me levaram a pegar o elevador e apertar o botão para descer ao subsolo do passado.

Light candle, Gustavo Gabriel, 2017.

Eu parei no amplo andar da infância, ali uma barafunda de memórias, objetos e sentimentos – uns mais, outros menos empoeirados – me esperava. Creio que todo mundo já tenha revisitado várias vezes sua infância, caso você leitor ou leitora não se lembre de ter feito isso ainda, eu aconselho. Pode ser que saia de lá com surpresas, risos, lágrimas e outras reações, certo é que você vai sair diferente do que entrou. Como eu faço essa visita com alguma frequência, já conheço pontos de referência, sei aonde dá boa parte dos corredores e alguns atalhos entre pilhas de livros, brinquedos e perguntas. Desviei de várias delas, segui caminhando no rastro do perfume, algumas curvas, retornos e novos avanços. Numa esquina entre os cinco e seis anos, não sei ao certo a localização, encontrei o frasco do perfume, não era exatamente o que eu ganhei, mas era parecido.

Os grilos cantam no início da noite no interior da Bahia. Eu diminuto na grande casa da minha avó, entre as cadeiras da área de piso vermelho, de frente para um jardim extenso que só termina no portão de entrada. Minha tia mais velha chegava do trabalho acompanhada de um homem. Só que ele era tão alto que tudo que consigo ver na penumbra da luzes que atravessam as plantas é a sua calça jeans. Antes dele dizer boa noite com o fino trato – que hoje sei que lhe é característico –, sinto outra de suas marcas, o perfume forte e amadeirado. Deve ter sido a primeira vez em que vi meu futuro tio, seu nome é Vital e ele é a pessoa mais educada e paciente que já conheci.

Um dia desses, já professor de escola, eu estava desenhando um mapa-múndi no quadro da sala e lembrei de quando eu ainda era um pequeno canhoto sem qualquer traquejo com o lápis tentando preencher algumas figuras. Meu tio me explicou calmamente para seguir pintando sempre na mesma direção, e nos círculos, começar pelos seus contornos. Ali na sala de aula, meu nariz rente ao Oriente Médio e a mão esquerda traçando uma linha entre a América e a Europa, eu pensei que o mundo precisava mesmo das qualidades vitais do meu tio: a paciência e a educação. Terminou o horário, guardei os pincéis e canetas no estojo, essa lembrança devo ter posto em algum lugar esquecido. Só vim retirá-la de lá junto daquela outra no jardim da minha avó quando abri pela segunda vez meu presente e senti seu perfume. O que isso tudo, significa? Talvez que as memórias e sentimentos tenham cheiros. Encontrá-los, as vezes, só é possível por conta do acaso. Não sei responder ou explicar perfeitamente, certo é que, como já disse antes, a relação entre as pessoas e os perfumes é mesmo complexa.

Revisão: Arthur Duarte (Twitter)
Fotografia: Gustavo Gabriel (Instagram)

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O fim

Das suas janelas ele tinha a visão da chuva sobre a cidade que circundava seu prédio. Era o maior arranha-céu atravessando o coração dela, como se um deus tivesse com seu dedo imenso marcado um ponto sobre a terra para que a partir dele se edificasse um mundo, o mundo dos homens. E naquela quarta-feira de conta-gotas a água arrastava a sujeira desse mundo para os bueiros em uma batalha quixotesca, os moinhos eram os sacos de lixo que jaziam nas calçadas. Muito longe dali — distante dos limites da cidade — um chão ainda dormia a salvo em respiração suave sob as árvores frondosas desde o princípio. Os vidros eram suas muralhas impenetráveis contra a chuva que açoitava a cidade cinza, mas eram ineficazes contra a memória. Sob a luz do televisor, o homem observava o menino espiando com espanto pelas taipas do casebre a chuva lavar o morro e alagar seu pé. A chuva parou, a televisão foi desligada e o pai colocou a criança nos ombros, subiu as vielas e lá de cima apontou o mundo lá em baixo. “Não tenha medo, ali, olha ali, depois do pé do morro, até lá, lá que tu nem consegue vê ainda menino, tudo pode ser teu, mas óia”. Ele retirou o menino dos braços e pôs de frente para si. “Tu mermo menino, tem que fazer teu caminho. Agora vamo descer que a obra num para”. Eram palavras do tempo da cajuína só em dia de festa, mas faziam muitos anos que o uísque era seu companheiro mais fiel.

Levantando o copo, fazendo os icebergs rodar no oceano amarelo, ele pensava que sim, tudo que o pai tinha lhe mostrado naquele dia já era dele. “Sim, meu, mas e agora?” A dúvida era um soldadinho atrevido que pousou no seu terno semanas atrás e teimava em não sair. “E agora?” Mais água no mar, e dois gelos no copo. “E agora?” A esfinge indecifrável. Ele foi para o armário, retirou um retrato por trás de infinitos contratos, perguntou para o homem de sorriso incompleto e colher-de-pedreiro na mão, não obteve resposta. Foi guardar a foto e não conseguiu, alguma coisa não deixava ela voltar para o fundo da gaveta. A mão tateia o escuro e volta de lá com um livro velho que sua mãe levava quando saia nas tardes de domingo. Ele se espanta um pouco com a descoberta, se afunda na poltrona e folheia. Nas primeiras páginas encontrou a resposta. Balões de fumaça elevaram-se por entre as folhas mais altas. As esteiras e lâminas recortaram a relva deixando o chão careca. Deserto feito, deserto desfeito pelos implantes capilares de grama que cobriram todo o terreno com precisão matemática. Não havia uma árvore e os recortes retangulares que delineavam os infinitos lotes acentuavam a monotonia. Ali era o fim, a sua frente uma estrada recém-pavimentada e o imenso outdoor. Um casal de crianças se diverte em um balanço pendurado numa árvore frondosa enquanto seus pais sorriem e compartilham uma maçã, logo abaixo os publicitários deixaram o epitáfio em letras garrafais: Venha morar no paraíso.

Texto selecionado pelos jurados da II Edição do Concurso Literário Américo de Oliveira Costa (UFRN) e publicado em Natal e outras crônicas (2017, p. 53) – Baixe o livro aqui.


Fotografias: Acervo Pessoal – Instagram

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Fuleragem Carnavalesca – Ano I (2019)

O asfalto de Tirol e o calçamento da Cidade Alta reverberaram o som dos metais e percussões do Frevo do Chico. Numa segunda-feira de Carnaval, pessoas de todos os cantos seguiram em direção ao Beco da Lama, no Centro Histórico de Natal, entoando marchinhas e frevos em um bloco sem cordas, espaços vips ou outros tipos de segregações. Esse foi o primeiro ano do bloco Fuleragem Carnavalesca levando foliões de todas as idades ao coração da capital potiguar pelos caminhos da alegria. Teve criança de colo, cicloativistas, professores, vendedores, músicos e outros artistas, povo da nova e da velha guarda de profissões e inventos mil; todos e todas andando, dançando e se divertindo como espíritos livres. Teve espaço para todo mundo, fantasias de noivos, animes, homens e mulheres da caverna, circo, super-heróis, diabos e anjos, passistas, líderes comunistas, e tantos outras. Só não houve lugar – é claro – para a violência, o preconceito e o lixo, porque esse é um bloco de pessoas conscientes do seu papel no mundo.

Muito obrigado ao Abayomi por essa incrível iniciativa, e a todos os foliões que levaram sua felicidade para as ruas nessa segunda-feira de Carnaval. Longa vida a Fuleragem Carnavalesca!

Fotografias: Acervo Pessoal
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Alguns momentos nossos no Fuleragem Carnavalesca 2019. (Uma das fotografias com Walter, um dos organizadores do Abayomi e do bloco)