Cadeiras e sonhos

Há um mistério nas cadeiras de balanço, pois ninguém sabe responder por que seu ir e vir sem sair do canto maravilha tanto os velhos e as crianças. Não deve existir outro objeto tão útil à humanidade, mas não sei de alguém quem tenha se preocupado em saber como se fazem as cadeiras. Na verdade, pensando bem, conheço uma única pessoa, meu avô, este moço que se balança ansiosamente na varanda da casa de sua irmã. Quando o vim conhecer, já era um sexagenário de calças cinza de vinco marcado no brim, os seus olhos azuis abaixo de uma boina italiana.

No entanto, está história é muito anterior a mim, é do tempo em que os jovens ainda andavam por aí de calça e camisa de manga longa, do tempo em que tanques de guerra e metralhadoras rugiam na Europa, do tempo e em que soldados brasileiros se despediam dentro dos navios para nunca mais voltar. Meu avô paterno foi militar, sofreu em camas de campanha e leitos de hospital, depois teve três mulheres e viveu muito, muito mesmo. Só que essa história é sobre meu outro avô, o que nos tempos da guerra vivia no interior de Pernambuco, sua paz era corroída apenas pela falta de dinheiro. Já o conheci tiradentes – dentista de feira com ponto perto do mercado –, mas ele só aprenderia esse ofício depois, naquela época era marceneiro. As tábuas e móveis consumiam seus dias, as dívidas e sonhos varriam suas noites.

Certo domingo, o cinema instalado na praça principal animava a pequena cidade com as cenas de Tarzan, um velho sucesso de Holywood. Na segunda-feira, não foram poucos os que jogaram no bicho os números dos animais que estavam sendo projetados na tela, nos fundos da igreja, na noite anterior: macaco, elefante, jacaré, leão. Até no número 22 – o tigre – subiu nas apostas, mesmo ele não aparecendo na película. Todos perderam seu dinheiro, incluindo meu avô, uma vez que o animal sorteado foi o cachorro. Ele ficou decepcionado com o resultado e ainda mais consigo mesmo, pois na madrugada havia sonhado que uma de suas irmãs mais velhas havia ganhado dois cachorros pequenos, um da cor de leite, outro rajado como uma rapadura. No entanto, só lembrou-se disso depois de saber o resultado da banca na segunda-feira.

Os cruzeiros da aposta e a chance de ganhar estavam perdidos, o jeito foi se dedicar ao trabalho, pois não se faz um bom jogo de mesa e cadeiras sem a madeira certa e para achá-la é necessário se embrenhar nas matas, gastar as sandálias nas trilhas de pedra e poeira, ter olhos atentos para achar o tipo de árvore correto no meio de tantos outros. Uma vez encontrada a árvore, é necessário que ela seja grande e velha o suficiente para ter um interior bem seco, se for alta e mais ou menos reta, melhor ainda. A lâmina do machado tem de ser afiada e os braços fortes para derrubar o tronco principal, já manejar o serrote requer mais jeito do que força. Nos anos 1940, ter um automóvel era inimaginável, por isso quem levou as toras para a marcenaria foi o carro de boi. Meu avô gastou dias e dias procurando as madeiras nas terras de parentes, cortando e arrastando troncos, transformando-os em tábuas com as serras e a plaina. Quem o vira, dizia que trabalhava como nunca para enfim juntar todo o dinheiro que precisava para sanar suas dívidas.

São seis dias para o trabalho e um para o descanso, diz a bíblia que o padre converte aos fiéis em latim no final de tarde do domingo. É mais uma vez noite de cinema depois da missa, dessa vez um bangue-bangue diverte o público. No fim, aplausos antes do gerador a óleo da cidade ser desligado, depois as pessoas caminhando na penumbra da lua nova para casa. Meu avô pensou que muitas pessoas jogariam no cavalo, no porco, na vaca e no galo que faziam parte do cenário entre resgates de mocinhas e tiros e facadas entre índios e cowboys, mas dessa vez ele não deu atenção às sugestões do faroeste para o jogo do bicho. Havia trabalhado muito para conseguir uma grande quantidade de madeira e convertê-la em um bom montante de cruzeiros. Tudo que ele queria era dormir o sono dos justos. Só que os sonhos não batem a porta, chegam e se vão sem pedir licença para entrar ou sair.

Meu avô acordou exasperado, questionava-se como é que um sonho vinha lhe tentar, logo quando trabalhou tanto para juntar dinheiro. Sem delongas, conversou com um irmão, que morava na mesma casa, sobre o que lhe tinha acontecido semanas antes e o que havia se passado em sua mente na madrugada anterior. Ele estava no topo de uma torre de pedra muito alta, sentado numa das cadeiras feitas da madeira que havia cortado. O cheiro de tinta ainda rescindia no móvel, de modo que teve que conferir se sua calça havia sido manchada. O alívio da roupa intacta durou pouco, um barulho intenso vinha do interior da torre, teve de abrir o alçapão aos seus pés para conferir o que acontecia. Com o vento forte, não dava para distinguir o que diziam os gritos agudos, só os passos da multidão subia os muitos lances de escada. A cada andar, as pessoas foram se tornando mais nítidas, eram os índios e cowboys do filme. Só que, dessa vez, não estavam guerreando entre si, subiam a toda velocidade juntos. Uma certeza formou-se no coração do meu avô, essa tropa subia a todo pique com o objetivo de pegá-lo. Os sonhos não nos dão tempo para os comos e os porquês, tudo que sabia era que tinha de fugir, seja como for, escapar. Pensou em travar o alçapão com as cadeiras e a mesa, mas não adiantaria, vinham muitos atrás dele.

Então, não lhe restava alternativa, ou enfrentar a turba ou se jogar lá de cima. A vista de lá era ao mesmo tempo bela e triste, o sol se punha em um deserto a perder de vista, do outro lado, quase no horizonte, uma praia distante. Ele permaneceu imóvel, indeciso sobre o que fazer enquanto os sons dos passos e dos gritos se tornavam cada vez mais altos. Quando sentiu a primeira batida no alçapão, tomou sua decisão, pegou a cadeira na qual estava sentado e em um movimento indefinido entre o medo e a coragem, atirou-se em direção a areia. Fechou os olhos e sentiu o vento forte enquanto o corpo e o móvel aceleravam em direção ao solo, segundos intermináveis até o baque na areia quente, quando ele ocorreu, teve um susto e abriu os olhos. Acordou de supetão pouco antes do amanhecer em seu colchão de palha habitual, o corpo todo suado. O seu irmão escutou a história com atenção, atento a cada detalhe que meu avô lhe dizia. Para ele, estava claro que aquele sonho estava muito longe do normal, e que esse era sim mais um sinal claro para que meu avô dessa vez não desperdiçasse sua chance e jogasse no número 8, o camelo.

Meu avô teve coragem de se decidir sobre a aposta ainda naquela manhã, mas não de ir saber o resultado do jogo do bicho na praça central da cidade. Ficou na casa de uma irmã o dia todo, esteve em um ir e vir frenético da cadeira de balanço no alpendre. Não almoçou, apenas atendeu aos seus vícios – o cigarro e o café preto – enquanto se balançava freneticamente. No meio da tarde, seu irmão abriu a o ferrolho da portinhola de madeira, o rosto sério. Comunicou que o camelo não havia saído, o número sorteado havia sido o 3. Meu avô comentou que ele podia ficar sossegado, pois não havia gasto todo seu dinheiro no camelo. Na verdade, havia apostado tudo que tinha no burro, porque só um burro pularia de uma torre tão alta com uma cadeira nas mãos. A aposta dele foi a única da região no animal certo, ele quebrou a banca e mudou de vida. Apesar de saber como fazer, nunca mais construiu uma cadeira em toda sua vida.

Revisão: Maria José/Arthur Duarte (Twitter)

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