Perfume da Memória

A relação entre o ser humano e os cheiros não é simples. Muitos amam abrir um livro novo para exalar as páginas recém impressas, outros tem crise de espirros só por entrarem em uma sala que tenha jornais. A conexão entre pessoas e perfumes parece ainda mais intrincada. Não é necessário trabalhar em uma perfumaria para saber que uma mesma água-de-colônia agrada profundamente certos clientes e nauseia tantos outros. Varia de pessoa para pessoa, é um dito já gasto de tanto uso e verdade, só que o caso é ainda mais complexo.

Não deve fazer mais que um par de anos que eu ganhei um perfume novo. O motivo não foi aniversário ou alguma outra data comemorativa, mas sim porque algo substancial mudou no olfato da minha namorada. Ela gostava bastante do perfume que eu usava, até que de um dia para o outro passou a ter completa aversão àquela fragrância. Era de um jeito que tinha dor de cabeça e enjoo ao senti-la. Alguém dado ao sentido oculto das coisas, poderia ver ai um mal presságio divino. No entanto, não foi essa a nossa intuição como espíritos práticos. Ela doou meu perfume antigo e me comprou um novo.

Apesar de ter gostado da nova fragrância, eu terminei colocando o seu vidro arrojado no banco de reservas do meu banheiro – uma portinha no armário da pia em que ficam desodorantes, remédios, creme de barbear, saboneteiras e outros produtos para serem usados depois. Na vaga de titular, uma calejada água de cheiro, seu frasco plástico com trava deslizante foi um ótimo companheiro em viagens por ar, mar e terra nos últimos anos. Hoje nem sei porque exatamente fiz isso, mas foi uma escolha que não agradou minha parceira – ela preferia eu utilizando o perfume novo, ou, quem sabe, os dois –, mas, pelo menos não era o intragável aroma antigo.

O uso diário levou ao fim os 100ml de minha colônia de viagens. Chegou o dia de retirar o meu presente das coisas guardadas e promovê-lo ao time principal. Abri a tampa e disparei o spray, o aroma que eu já conhecia no ar. No entanto, junto dele algo que eu não tinha percebido da primeira vez. Uma característica ao mesmo tempo marcante e indefinível, algo que por não saber uma nome melhor, chamei de perfume da memória. Esse cheiro me trouxe lembranças embaçadas, fragmentos de nuvens atravessadas pela turbina de um avião. Um homem muito alto, de voz calma e educada, não consigo ver seu rosto. Minha mão sem firmeza segurando um lápis de cor, tentando pintar – sem ter muito manejo – um desenho em um papel. O que essas imagens significam? Quem é esse homem? Meu primeiro pensamento foi que seria um amigo de muita altura e educação. As pessoas as vezes pediam para ele repetir o que tinha dito porque ele fala com suavidade. Ele é bem alto – quando perguntei me respondeu que tem 1,87 – mas, na memória repentina do perfume eu tinha visto alguém maior, um gigante. Pensando bem, na visão em que eu segurava o lápis, a minha mão eram bem menor do que hoje. Indícios que me levaram a pegar o elevador e apertar o botão para descer ao subsolo do passado.

Light candle, Gustavo Gabriel, 2017.

Eu parei no amplo andar da infância, ali uma barafunda de memórias, objetos e sentimentos – uns mais, outros menos empoeirados – me esperava. Creio que todo mundo já tenha revisitado várias vezes sua infância, caso você leitor ou leitora não se lembre de ter feito isso ainda, eu aconselho. Pode ser que saia de lá com surpresas, risos, lágrimas e outras reações, certo é que você vai sair diferente do que entrou. Como eu faço essa visita com alguma frequência, já conheço pontos de referência, sei aonde dá boa parte dos corredores e alguns atalhos entre pilhas de livros, brinquedos e perguntas. Desviei de várias delas, segui caminhando no rastro do perfume, algumas curvas, retornos e novos avanços. Numa esquina entre os cinco e seis anos, não sei ao certo a localização, encontrei o frasco do perfume, não era exatamente o que eu ganhei, mas era parecido.

Os grilos cantam no início da noite no interior da Bahia. Eu diminuto na grande casa da minha avó, entre as cadeiras da área de piso vermelho, de frente para um jardim extenso que só termina no portão de entrada. Minha tia mais velha chegava do trabalho acompanhada de um homem. Só que ele era tão alto que tudo que consigo ver na penumbra da luzes que atravessam as plantas é a sua calça jeans. Antes dele dizer boa noite com o fino trato – que hoje sei que lhe é característico –, sinto outra de suas marcas, o perfume forte e amadeirado. Deve ter sido a primeira vez em que vi meu futuro tio, seu nome é Vital e ele é a pessoa mais educada e paciente que já conheci.

Um dia desses, já professor de escola, eu estava desenhando um mapa-múndi no quadro da sala e lembrei de quando eu ainda era um pequeno canhoto sem qualquer traquejo com o lápis tentando preencher algumas figuras. Meu tio me explicou calmamente para seguir pintando sempre na mesma direção, e nos círculos, começar pelos seus contornos. Ali na sala de aula, meu nariz rente ao Oriente Médio e a mão esquerda traçando uma linha entre a América e a Europa, eu pensei que o mundo precisava mesmo das qualidades vitais do meu tio: a paciência e a educação. Terminou o horário, guardei os pincéis e canetas no estojo, essa lembrança devo ter posto em algum lugar esquecido. Só vim retirá-la de lá junto daquela outra no jardim da minha avó quando abri pela segunda vez meu presente e senti seu perfume. O que isso tudo, significa? Talvez que as memórias e sentimentos tenham cheiros. Encontrá-los, as vezes, só é possível por conta do acaso. Não sei responder ou explicar perfeitamente, certo é que, como já disse antes, a relação entre as pessoas e os perfumes é mesmo complexa.

Revisão: Arthur Duarte (Twitter)
Fotografia: Gustavo Gabriel (Instagram)

Um comentário em “Perfume da Memória

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