O fim

Das suas janelas ele tinha a visão da chuva sobre a cidade que circundava seu prédio. Era o maior arranha-céu atravessando o coração dela, como se um deus tivesse com seu dedo imenso marcado um ponto sobre a terra para que a partir dele se edificasse um mundo, o mundo dos homens. E naquela quarta-feira de conta-gotas a água arrastava a sujeira desse mundo para os bueiros em uma batalha quixotesca, os moinhos eram os sacos de lixo que jaziam nas calçadas. Muito longe dali — distante dos limites da cidade — um chão ainda dormia a salvo em respiração suave sob as árvores frondosas desde o princípio. Os vidros eram suas muralhas impenetráveis contra a chuva que açoitava a cidade cinza, mas eram ineficazes contra a memória. Sob a luz do televisor, o homem observava o menino espiando com espanto pelas taipas do casebre a chuva lavar o morro e alagar seu pé. A chuva parou, a televisão foi desligada e o pai colocou a criança nos ombros, subiu as vielas e lá de cima apontou o mundo lá em baixo. “Não tenha medo, ali, olha ali, depois do pé do morro, até lá, lá que tu nem consegue vê ainda menino, tudo pode ser teu, mas óia”. Ele retirou o menino dos braços e pôs de frente para si. “Tu mermo menino, tem que fazer teu caminho. Agora vamo descer que a obra num para”. Eram palavras do tempo da cajuína só em dia de festa, mas faziam muitos anos que o uísque era seu companheiro mais fiel.

Levantando o copo, fazendo os icebergs rodar no oceano amarelo, ele pensava que sim, tudo que o pai tinha lhe mostrado naquele dia já era dele. “Sim, meu, mas e agora?” A dúvida era um soldadinho atrevido que pousou no seu terno semanas atrás e teimava em não sair. “E agora?” Mais água no mar, e dois gelos no copo. “E agora?” A esfinge indecifrável. Ele foi para o armário, retirou um retrato por trás de infinitos contratos, perguntou para o homem de sorriso incompleto e colher-de-pedreiro na mão, não obteve resposta. Foi guardar a foto e não conseguiu, alguma coisa não deixava ela voltar para o fundo da gaveta. A mão tateia o escuro e volta de lá com um livro velho que sua mãe levava quando saia nas tardes de domingo. Ele se espanta um pouco com a descoberta, se afunda na poltrona e folheia. Nas primeiras páginas encontrou a resposta. Balões de fumaça elevaram-se por entre as folhas mais altas. As esteiras e lâminas recortaram a relva deixando o chão careca. Deserto feito, deserto desfeito pelos implantes capilares de grama que cobriram todo o terreno com precisão matemática. Não havia uma árvore e os recortes retangulares que delineavam os infinitos lotes acentuavam a monotonia. Ali era o fim, a sua frente uma estrada recém-pavimentada e o imenso outdoor. Um casal de crianças se diverte em um balanço pendurado numa árvore frondosa enquanto seus pais sorriem e compartilham uma maçã, logo abaixo os publicitários deixaram o epitáfio em letras garrafais: Venha morar no paraíso.

Texto selecionado pelos jurados da II Edição do Concurso Literário Américo de Oliveira Costa (UFRN) e publicado em Natal e outras crônicas (2017, p. 53) – Baixe o livro aqui.


Fotografias: Acervo Pessoal – Instagram

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s