No rio escuro

A cadeira de balanço se move suavemente no mormaço, acompanhando pernas habituadas à tarefa. Regendo o silêncio da sesta, o ponteiro menor se aproxima cautelosamente do número dois. Apenas os peixes fazem companhia ao rio escuro, até os pequenos barcos descansam na margem. “Ninguém antes das três”, pensa o velho. Duas pernas sobre o tamborete e os olhos castanhos se escondem atrás das pálpebras cerradas. Lá estava ela e uma vizinha, tomando café com tapioca na mesa velha. A senhora de olhos miúdos conversa animadamente. Ele reconhece a casa, lá está o velho fogão de carvão, a santa ainda não tão desbotada. Sentada naquele mesmo tamborete onde ele repousa suas pernas, falava de um menino curioso, que com três anos nunca tinha visto uma meia. Contava que quando o irmão mais velho voltou a primeira vez deixou os sapatos do lado do pote d’água. Ria dizendo que encontrou o piá com a meia branca na boca achando que era tapioca. 

Bailarina, Gustavo Gabriel, 2018.

Uma batida leve acorda-o. Os olhos castanhos aparecem: “Boa tarde”.  “Boa”.  Um viajante encostado no balcão lhe pede um maço de cigarros.  O senhor lhe entrega coçando a barba branca. O homem põe o maço no bolso da camisa e entrega uma nota. “Não tem sotaque daqui, deve ser mais um viajante de passagem”, comenta mentalmente o velho. “Mais alguma coisa?”. “Não, já é hora de ir”. “Mas já vai?”, pergunta o velho separando umas moedas para o troco. O viajante aponta o relógio na parede, ponteiros imóveis, o menor nem sequer chegou ao dois.  O velho respira fundo: “Vou só aqui rápido, tá certo?” O homem de camisa branca na entrada da venda confirma com a cabeça. Uns instantes depois o senhor reaparece com uma sacola. Descem até o rio e entram num barquinho que o velho não vira chegar. “O que tem na sacola?” O velho lhe mostra o conteúdo, um par de meias e outro de sapatos velhos. Antes que surja outra pergunta vem uma resposta: “São presentes para minha mãe”. O mais novo esboça um sorriso e oferece o maço de cigarros e o isqueiro ao velho. O barco segue sem fazer barulho, deslizando sem deixar rastros nas águas escuras do rio.

Texto selecionado pelos jurados da II Edição do Concurso Literário Américo de Oliveira Costa (UFRN) e publicado em Natal e outras crônicas (2017, p. 53) – Baixe o livro aqui.

Fotografia: Gustavo Gabriel (Instagram)

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